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sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Da Psicanálise às Teorias das Redes: Doc 'Pulsão'  aborda o Poder das Mídias Digitais no processo político eleitoral

Da Psicanálise às Teorias das Redes: Doc 'Pulsão' aborda o Poder das Mídias Digitais no processo político eleitoral

 

Filme ficará disponível gratuitamente em Canal do Youtube

O documentário "Pulsão", dirigido por Di Florentino com pesquisa e roteiro de Sabrina Demozzi, lançado virtualmente no dia 04 de setembro, e atualmente em cartaz em plataforma streaming, realiza uma análise do intenso uso das tecnologias da informação e comunicação nas transformações do atual cenário político brasileiro. Com uma narrativa dinâmica, o filme retoma fatos políticos e usa conceitos da metapsicologia freudiana e da Teoria das Redes para demonstrar como a utilização de fake news dividiram politicamente o país, com graves reflexos na democracia brasileira.

O roteiro enfoca o
 desenvolvimento do ativismo político digital no Brasil, principalmente a partir de 2013 com "as jornadas de junho" até o período do processo político eleitoral de 2018. Também enfatiza o surgimento de novos atores sociais no cenário político nacional e a preocupação com o crescimento dos movimentos de extrema direita no país e no mundo.

De acordo com Di Fiorentino, "Pulsão" surgiu após o registro e transmissão ao vivo nas redes sociais do evento de resistência "Circo da Democracia", realizado em Curitiba, em 2016. "
Como o material é muito importante historicamente, a gente queria transformá-lo em um longa documental. Portanto, em conversas com os envolvidos na concepção da obra e uma vontade de tratar de temas que estavam aflorando na época, como é o caso dos efeitos da desinformação nas redes sociais e do uso dos algoritmos para disseminar o ódio, surgiu o Pulsão".*

Para além dos eventos de resistência a favor da Democracia, o documentário faz uma análise sobre as narrativas de produtos culturais, que apresentaram um discurso panfletário de combate à corrupção, misturando realidade e ficção para demonizar a esquerda, principalmente o Partido dos Trabalhadores (PT), e construir heróis e mitos da extrema direita. Também aponta que, entre 2013 e 2018, vários acontecimentos políticos no Brasil acabaram por provocar o afloramento dos impulsos de destruição e desejos de dominação que foram amplamente propagados nas mídias e nas redes sociais. Argumentam que a apropriação da psiquê pela tecnologia vem transformando as relações sociais e o modo de fazer política no país.

As Teorias das Redes na Internet

O roteiro do filme trabalha com elementos das teorias das Sociedades em Rede e das Redes Sociais na Internet, muito difundida no Brasil por obras de autores como o espanhol Manuel Castells e a brasileira Raquel Recuero. A
borda as fakes news e a dinâmica da construção de identidades fakes no ciberespaço, assim como o uso intensivo de aplicativos e plataformas privadas como o facebook, o twitter e o whatsapp, que transformaram o modo de consumo das narrativas de cunho político.

Castells, autor de "A sociedade em Rede","A Galáxia da Internet" e "Ruptura, a crise da Democracia Liberal", discorre em seus trabalhos sobre a cultura da internet e as transformações na sociedade da era digital. Destaca que, atualmente, vivemos uma crise da legitimidade política, um colapso gradual do modelo político de representação e governança decorrente de uma desconfiança nas instituições, constituindo uma ruptura entre governantes e governados. 
O sociólogo espanhol, que esteve em julho de 2019 no Brasil para participar do Seminário "Comunicação, Política e Democracia" realizado pela Fundação Getúlio Vargas, alertou para o papel decisivo e transformador da tecnologias da comunicação e informação na construção das relações de poder. 

Já Raquel Recuero, autora de "Redes Sociais na Internet" e "A conversação em Rede", 
 pesquisa a dinâmica das Redes e como se processa a difusão da informação dentro das comunidades virtuais. De acordo com a jornalista e pesquisadora, as informações circulam nas redes sociais com base na percepção de valor gerada pelos atores sociais, ou seja, pelo seu capital social. Quando esses atores fazem circular mais informação na rede, maior é sua reputação perante os demais membros do grupo. Deste modo, as redes sociais se apresentam como fontes produtoras de informação, filtros ou espaços de reverberação de informações, gerando mobilizações que podem ser de interesse jornalístico. Há difusão, mas também discussão e ampliação das informações. Entretanto, as redes também podem refletir interesses individuais e de grupos sociais resultando, em muitos casos, na produção e circulação das "cascatas de fake news políticas", com narrativas que ecoam preconceitos e visões de mundo dos atores sociais.

O filme traz essa visão, de como essas notícias falsas ecoaram de forma negativa no imaginário dos eleitores, criando sentimentos de repulsa e destruição aos que não compartilhavam da mesma opinião. O surgimento de movimentos extremistas que incentivavam a intolerância e o uso da violência contra os adversários políticos fragilizaram os alicerces da democracia brasileira.

O conceito de Pulsão na Psicanálise

Quando Freud apresentou o conceito de Pulsão, em seu artigo 'A pulsão e seus destinos', na década de 1910, 
jamais poderia imaginar que, um século depois, o mundo viveria a era da internet e das redes sociais e que este conceito traduziria tão bem as interações sociais da contemporaneidade, a partir dos estímulos provocados pela influência das mídias digitais e das redes sociais da internet na política. 

Pulsão (do alemão, Trieb) seria uma força constante, com origem corporal, percebida como um estímulo para o psíquico, presente através da representação e do afeto. Quando a representação se despreende do afeto teríamos o recalque, que seria uma reação de defesa psíquica contra conteúdos que causam desprazer. O pai da psicanálise considerava a pulsão como uma entidade mítica equivalente ao conceito de força motriz, da física. O primeiro dualismo pulsional situava as pulsões como as do ego, movidas pela autopreservação do eu, e as sexuais,  que operavam para a obtenção de prazer. O sentimento de ódio, o desejo de destruição e a indiferença ao outro seria resultante da relação do ego com os objetos do mundo externo. 


Os cineastas trabalharam com o conceito freudiano de pulsão, trazendo a perspectiva dos desejos de destruição e de dominação por parte de uma elite econômica descontente em perder privilégios, com ânsias para retomar o poder político, em detrimento de uma política dos governos de esquerda voltada para os avanços sociais. O
 golpe contra a então Presidente Dilma Roussef e a avalanche de fake news nas redes sociais e na mídia tradicional foi decisiva para desestabilizar o país até o processo político eleitoral de 2018. O documentário mostra essa relação de consumo de potenciais eleitores com esse tipo de ativismo digital, sem compromisso com a ética, que ganhou força no país. 

O documentário "Pulsão", uma realização da Produtora Trópico, ficará disponível por tempo indeterminado no site ou no Youtube do filme. 


Elisabete Estumano Freire

* Trecho de entrevista com os diretores do filme disponibilizada pela produtora Trópico e Espaço Z. Fonte: Vanessa Assis.  

** Também foram consultados os seguintes textos: "Cascatas de Fake News Políticas: um estudo de caso no Twitter" - Raquel Recuero e Anatoliy Gruzd; "Redes Sociais na Internet, Difusão de Informação e Jornalismo: elementos para a discussão" - Raquel Recuero;  "Pulsões e seus destinos" (1915) - Laboratório de ensino. Flávia Lana Garcia de Oliveira; "O conceito de Pulsão na Psicanálise Freudiana: considerações a partir da filosofia de Martin Heidegger" - Jilvania de Jesus Barbosa, Caroline Vasconcelos Ribeiro. 


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domingo, 25 de dezembro de 2016

Star Wars: Rogue One (crítica)

Star Wars: Rogue One (crítica)


Spin-off de Star Wars comprova resiliência da mitologia de George Lucas através de gerações, apostando na nostalgia, no empoderamento feminino e no politicamente correto

Trinta e nove anos separam Rogue One (2016) do lançamento de A New Hope (1977), primeiro filme da saga Star Wars. De lá para cá muita coisa mudou, a começar pela configuração geopolítica mundial, da bipolaridade da Guerra Fria, para a Nova Ordem Mundial, de unimultipolaridade. Agora, a história da luta dos rebeldes da Aliança contra o Império Galáctico, que arrebatou gerações de fãs, começa a ganhar novos contornos políticos, contextualizados na perspectiva da sociedade norte-americana e no resultado das últimas eleições, com a vitória do radicalismo de Donald Trump.

Baseado no universo Star Wars, Rogue One é o primeiro filme fora das trilogias principais. Com história de John Knoll e Gary Whitta, roteiro de Chris Weitz e Tony Gilroy, o longa está situado antes dos eventos do episódio IV - A New Hope, narrando a história do roubo dos planos da Estrela da Morte pela Aliança Rebelde. Rogue One traz novos personagens, ampliando o mundo ficcional de George Lucas, mas sem deixar de fazer referências diretas à primeira trilogia, especialmente os episódios IV e V.  

O filme apresenta a história de Jyin Erso (Felicity Jones), filha do cientista Galen Erso (Mads Mikkelsen), que liderou o projeto de engenharia da Estrela da Morte. Usando uma identidade falsa, capturada pelo Império por alguns delitos, Jyn é resgatada pela Aliança e coagida a colaborar com os rebeldes. Sua missão é reencontrar Saw Gerrera (Forest Whitaker), um líder rebelde controverso, que a criou após a prisão de seu pai pelo império, mas que a abandonou na adolescência.  A aliança quer que ela consiga informações sobre a construção da Estrela da morte, sendo vigiada de perto pelo oficial de inteligência da Aliança, Cassian Andor (Diego Luna).

Inicialmente, a personagem é cética e age de maneira cínica perante o ideal revolucionário contra o império, sem se importar com a causa que só lhe trouxe dor e sofrimento. Sua postura começa a mudar quando tem acesso a um segredo de seu pai, o que faz com que a jovem se torne a inspiração e a esperança dos rebeldes, responsável pela ofensiva da Aliança em território controlado por Darth Vader (James Earl Jones/Spencer Wilding).

Empoderamento feminino
Jyn é mais uma personagem feminina de destaque dentro da saga. Assim como Rey (Daysi Ridley), de The force awakens(Ep.VII), é ela quem concentra a ação, assumindo o papel de Luke Skywalker dentro do episódio, acompanhada de perto por Cassian Andor (Diego Luna), uma espécie de Han Solo latino. Poderíamos mesmo dizer que ela detém o poder da força. Ainda que a princesa Lea (Carrie Fischer), da trilogia original, e Padmé Abdalla (Natalie Portman), da segunda trilogia, tenham papel essencial dentro da mitologia Star Wars, ambas exercem função coadjuvante, não protagonizando os confrontos centrais contra o império. Tanto Lea quanto Padmé são mulheres fortes, porém possuem uma atuação mais política, geralmente sendo salvas das situações de risco. Já Rey (Daysi Ridley), de The force awakens, e Jyn (Felicity Jones), de Rogue One, atuam como protagonistas na trama, destacando-se como líderes guerreiras, exercendo um maior ou menor domínio sobre a força.

Recuperando a magia Star Wars
Para os fãs que se decepcionaram com a segunda trilogia (episódios I, II e III), que narrava a história do pequeno Anakin Skywalker até se transformar em Darth Vader, os novos filmes da franquia retomam a magia da saga intergaláctica. Com muitas cenas de ação e recursos visuais mais sofisticados, assim como The force awakens (Ep.VII), Rogue One aposta na nostalgia, recuperando a atmosfera da primeira trilogia, com muitas homenagens e a aparição de personagens antológicos.

Peter Cushing e Carrie Fischer em cena de A New Hope (1977)
Um dos destaques do filme é a ressuscitação digital de Peter Cushing, falecido em 1994, devido a um câncer de próstata, aos 81 anos. O ator britânico interpretou o governador Grand Moff Tarkin, o comandante da Estrela da Morte, no primeiro Star Wars. A técnica, uma combinação de ação real e computação gráfica (CGI, imagem gerada por computador e efeitos digitais), permitiu que o ator Guy Henry, de 56 anos, interpretasse o vilão Tarkin no set, tendo sua imagem substituída pela de Peter Cushing na pós produção.

Esse tipo de recriação digital já foi utilizado anteriormente para recuperar a imagem de atores falecidos durante as filmagens, como o caso de Oliver Reed, em “O gladiador” (2000) e Paul Walker, em “Velozes e furiosos 7”(2015), mas não tinha sido utilizada para colocar um ator em cena fora destes casos. O trabalho da equipe VFX em Rogue One  impressiona pela verossimilhança e naturalidade dos movimentos de Cushing. A ressuscitação digital de um ator falecido ainda é alvo de controvérsias quanto a ética do procedimento, e Rogue One levantou a discussão na imprensa internacional sobre as conseqüências dessa prática em Hollywood. Além de ressuscitar digitalmente o ator britânico, o filme também rejuvenesceu digitalmente outro personagem igualmente importante dentro da saga.

O filme tem várias camadas, apresentando personagens psicologicamente mais complexos e humanos, cheios de contradições e falhas, que vão além do velho maniqueísmo entre o bem e o mal. Há muitos momentos de alívio cômico, principalmente nos diálogos com o droide K-2SO, um guarda da segurança imperial reprogramado pela Aliança, interpretado por Alan Tudyk, que também dá vida ao droide por meio da captura de movimentos.
Outro grande vilão do filme é o diretor Orson Krennic (Ben Mendelsohn), responsável pelo desenvolvimento do projeto da Estrela da Morte. Entretanto, apesar da boa atuação de Mendelsohn, o personagem parece ofuscado pela presença (ainda que digital) do governador Tarkin e do próprio Darth Vader, é claro.

As cenas da batalha terrestre, nas praias da fictícia base de Scarif, o complexo imperial de segurança, onde o Império guarda os planos de engenharia da Estrela da Morte, são muito boas, com tomadas que lembram filmes como Apocalipse Now (1979) e “O Resgate do soldado Ryan” (1998). O confronto aéreo-espacial é igualmente imponente, com takes e ângulos suntuosos, de tirar o fôlego, em que o público se sente totalmente inserido na batalha, como num grande plano subjetivo. Isso sem falar na presença dos caças estelares X-Wing da Aliança, com a formação de seus esquadrões e líderes vermelho e ouro, e dos grandes cavalos de tróia do Império, os AT-AT Walkers, lembrando as batalhas da primeira trilogia.

Segundo o diretor Gareth Edwards, fã das trilogias Star Wars, o realismo das batalhas se deve às novas técnicas de efeitos visuais. O produtor executivo John Knoll e sua equipe construíram uma tela wraparound de LED gigantesca, com mais de 15 metros de diâmetro e uma abraçadeira central de 6 metros de altura, que permitia a reprodução das imagens nas telas, possibilitando que Gareth pudesse visualizar os efeitos visuais em tempo real ainda no set de filmagem, e incluir digitalmente outros elementos, como os lasers que voavam nas batalhas espaciais, enquanto dirigia os atores.

As gravações ocorreram nos estúdios Pinewood e em locações reais na Inglaterra, Islândia, Jordânia e Maldivas. Alguns exemplos de sets funcionais incluem a base rebelde Yavin4, com mais de 106 metros de comprimento por 60 metros de largura, além da Estrela da Morte, com quase 18 metros de largura por 6,5 metros de altura, minuciosamente recriada por meio de pesquisas e fotografias.

A força como signo da fé
A mitologia de George Lucas, baseada na jornada do herói, da luta do bem contra o mal, não é apenas recheada de elementos da mitologia grega e da cultura oriental, tão bem explicados por Christopher Vogler (A jornada do herói), e Joseph Campbell (O poder do mito; o herói de mil faces). Segundo o próprio Campbell, o filme encara o Estado como máquina, mostrando que não são as tecnologias que vão nos salvar, e sim a magia da força, ou seja, a confiança nas potencialidades do ser humano, sem negar a razão. Simbolicamente a luta de Luke Skywalker é a recuperação da humanidade em Darth Vader, um homem-máquina transformado pelo controle de um Estado autoritário, o lado negro da força.

A força, símbolo de fé na humanidade, é a alavanca que move os personagens. Enquanto os demais filmes das duas trilogias estão centrados na energia dos Jedis, em Rogue One, esse poder é mais diluído na fé. É a esperança na causa que faz com que a Aliança Rebelde lute contra o poder quase indestrutível do império.

A força também é símbolo de sabedoria. No filme, a representação da magia Jedi é encontrada na fé e na sabedoria de um monge cego, mestre nas artes marciais, e seu  melhor amigo, interpretados por dois astros chineses da atualidade. O personagem Chirrut Imwe (Donnie Yen) é um dos guardiões do templo de Jedha, mas não possui poderes especiais. Entretanto, ele se torna forte pela fé no poder da força, repetido como mantra: “Estou unido à força. A força está comigo”. Ele e seu amigo Baze Malbus (Jiang Wen), enfrentam as situações de risco invocando a união com a força, que lhes dá coragem para lutar contra o inimigo. Intuitivo, ágil e com senso de humor, Chirrut vê além dos olhos, revelando as intenções da alma. Os dois personagens são responsáveis por uma das melhores sequências do filme.

Quem é o verdadeiro inimigo?
O mundo ficcional de Star Wars pode ainda ser analisado dentro de uma perspectiva histórica, mostrando a visão de Hollywood e da sociedade norte-americana, contextualizado a partir das relações sócio-políticas contemporâneas.

Quando a New Hope foi lançado, em 1977, o contexto geopolítico mundial era a corrida espacial e armamentista entre EUA e URSS, período conhecido como Guerra Fria (1945-1991). Herdeira da geração pós-Segunda Guerra Mundial, a saga intergaláctica apresentava uma narrativa revolucionária contra o poder de regimes ditatoriais, representada pela configuração nazi-facista do Império Galáctico, e a construção de armas nucleares. Ao aumento da tensão política, no final dos anos 60, e o desgaste dos governos Lyndon Johnson (1963-1969) e Richard Nixon (1969-1974), o primeiro episódio da saga da família Skywalker foi contemporâneo da campanha vitoriosa de Jimmy Carter (1977-1981), que prometia uma política de distenção, lançando uma nova esperança de paz no mundo.  Entretanto, a grave crise econômica aliada à atuação de Carter, visto como indeciso pelos eleitores norte-americanos, diante da crise de reféns do Irã e da ocupação militar soviética no Afeganistão anulou suas chances de reeleição diante da posição conservadora do candidato Republicano Ronald Reagan (1981-1989). A maioria dos norte-americanos queria uma reação mais enérgica do governo e Reagan atendia a esses anseios. Os filmes seguintes, da primeira trilogia, The Empire Strikes Back (1980) e Return of the Jedi (1983), também correspondiam a essa demanda. Não por coincidência, o sucesso dos filmes da saga fez com que Reagan, em 1983, criasse o programa de defesa estratégica no espaço (SDI), que chamou de “Guerra nas Estrelas”, acirrando o clima de tensão militar e ideológica com os soviéticos.

Vinte e cinco anos após o fim da guerra fria, com o colapso do bloco soviético e a supremacia militar dos EUA, o inimigo agora é o terrorismo. Após os eventos de 11 de Setembro de 2001, e os diversos ataques terroristas ao redor do mundo, o medo de novos atentados produziram uma onda crescente de intolerância étnica e religiosa, principalmente contra imigrantes e mulçumanos. Após os governos dos republicanos da família Bush, de postura mais conservadora, e dos democratas Bill Clinton e Barack Obama, o radicalismo volta a ganhar mais espaço na política dos EUA, sendo personificado na figura do republicano e presidente eleito Donald Trump.

Em Rogue One, os rebeldes da Aliança são chamados pelo Império de terroristas, compostos por negros, latinos, asiáticos, ou seja, imigrantes que lutam por um ideal revolucionário contra a dominação de Vader, lutando pela volta da República e da democracia. Entretanto, utilizando-se de um discurso pacifista, de restabelecimento de paz na galáxia, são as tropas imperiais que invadem territórios, com tanques de guerra nas ruas, proclamando a defesa da “verdade e justiça” como justificativa para a ocupação militar. Por outro lado, a Aliança não está em consenso. Saw Gerrera (Forest Whitaker) é apenas um dos líderes rebeldes que decide agir por contra própria, com ataques pontuais de guerrilha junto às tropas imperiais, sendo considerado igualmente perigoso pelo Senado.

Neste mundo ficcional, os líderes políticos não chegam a um acordo e a diplomacia está fragilizada pelo terror, materializado na Estrela da Morte.  A esperança surge com a resistência e coragem de Jyn Erso (Felicity Jones), que passa a liderar um pequeno grupo de insurgentes.

Politicamente correto
Os extremismos, sejam eles de qualquer natureza, que preconizam medidas radicais como solução para os problemas são questionados em Rogue One, principalmente a partir dos personagens Cassian Andor (Diego Luna), Bodhi Rook (Riz Ahmed), Jyn Erso (Felicity Jones) e Galen Erso (Mads Mikkelsen).

Cassian Andor (Diego Luna), um respeitado oficial da inteligência rebelde, é um homem que perdeu tudo e entregou sua vida à causa da Aliança, traindo e matando em prol da luta Rebelde, obedecendo sem restrições ordens e hierarquias; Bodhi Rook (Riz Ahmed), piloto de carga do Império é um homem comum, que não deveria estar no meio desta guerra, e se torna um desertor; Galen Erso (Mads Mikkelsen) é um cientista que se vê obrigado pelo Império a construir a Estrela da Morte, arma nuclear que pode destruir um planeta; Já sua filha, Jyn Erso (Felicity Jones), acreditando ser abandonada pelo pai por causa da guerra do Império contra a Aliança Rebelde, tem desprezo por ambos os lados, não se importando com a desgraça alheia. Todos esses personagens vivem um dilema pessoal e crenças que os conduzem a situações limite. Entretanto, uma mudança em suas vidas mostra que contra a fé cega na causa, seja ela qual for, o bom senso sempre deve prevalecer na tomada de uma atitude.

O filme mostra o poder da ideologia para justificar ações armadas, por ambos os lados do conflito, mas se posiciona contra os extremismos. Talvez o longa seja a resposta de uma vertente de Hollywood que se posiciona contra o radicalismo de Trump. De temperamento explosivo e discurso xenofóbico, o presidente eleito promete adotar medidas políticas contra imigrantes e refugiados, além de modernizar o arsenal nuclear, aumentando a tensão bélica no mundo. Como reação ao discurso de Trump, o presidente Vladimir Putin também anunciou o aumento da capacidade nuclear da Rússia e a vigilância de suas fronteiras. Isso significa, infelizmente, que talvez estejamos mais próximos de uma segunda Guerra Fria. Dentro deste cenário, Rogue One mostra que a mitologia de George Lucas está cada vez mais contextualizada com a política atual, apostando no politicamente correto.

Elisabete Estumano Freire





sábado, 3 de dezembro de 2016

 Montagem de “Romeu e Julieta” de Kenneth Branagh tem exibição única no Brasil dia 05 de dezembro nos Cinemas.

Montagem de “Romeu e Julieta” de Kenneth Branagh tem exibição única no Brasil dia 05 de dezembro nos Cinemas.


O CinEvento traz para a telona a montagem contemporânea do clássico de Shakespeare, “Romeu e Julieta”, produzida pela Kenneth Branagh Theater Company, e protagonizada por Richard Madden (“Game of Thrones”) e Lily James (“Downtown Abbey”). O longa vai além do espetáculo teatral, reunindo de uma só vez o jogo cênico do palco com a sutileza do olhar cinematográfico, em exibição única dia 05 de Dezembro nas redes Cinépolis e Cinemark.

Dirigido pelo próprio Kenneth Branagh, em parceria com Rob Ashford, o espetáculo foi adaptado para o cinema por Benjamin Caron, que também dirigiu “The Winter’s Tale” e colaborou com Branagh na série “Wallander”, transmitida pela BBC em 2016. Filmado em preto-e-branco, o filme é o registro da representação teatral no Garrick Theatre, em Londres, optando por uma estética visual que nos remete ao neorealismo italiano da década de 50.

Filmado em tempo real, o espetáculo não é apenas a reprodução do teatro elisabetano, mas apresenta uma câmera em constante movimento, captando os detalhes, os primeiros planos e contra-planos. A iluminação cênica também é pensada para substituir as fusões da mesa de corte, com seus fade in e fade outs, o que exige dos atores uma marcação precisa, além de uma interpretação que contemple não apenas o público teatral, mas que carregue a carga emotiva voltada para o olhar cinematográfico, do espectador da telona.

Em dois atos, a peça que mostra a tragédia dos Capuleti e dos Montecchi, ambientada em Verona, apresenta ainda uma espécie de cinejornal com informações históricas e sócio-culturais da Itália, a partir da transição do entreguerras até a década de 1960.

Além da dupla de protagonistas, o elenco conta com Derek Jacobi, como Mercúrio, amigo de Romeu; e Meera Syal, como a ama de Julieta. O elenco completo inclui ainda Marisa Berenson (Senhora Capuleto), Jack Colgrave Hirst (Benvólio), Tom Hanson (Páris), Matthew Hawksley (Antonio), Taylor James (Príncipe), Ansu Kabia (Teobaldo), Rachel Ofori (Potpan), Nikki Patel (Baltasar), Chris Porter (Senhor Montecchio), Zoë Rainey (Senhora Montecchio), Michael Rouse (Senhor Capuleto), Sam Valentine (Frei Lourenço) e Kathryn Wilder (Peta/Boticário).


Sem dúvida uma bela homenagem no aniversário de 400 anos do gênio William Shakespeare. Imperdível!!

Elisabete Estumano Freire.





quarta-feira, 30 de novembro de 2016

A CHEGADA (CRÍTICA)

A CHEGADA (CRÍTICA)



A ciência e o esforço individual como solução para a intolerância política é a reflexão central do filme "A Chegada" de Denis Villenneuve.

Hollywood já produziu vários filmes sobre chegada de extraterrestres, seja como uma ameaça ao planeta ou como seres pacíficos, destacando os avanços da tecnologia e da ciência. Até aí nenhuma novidade. Entretanto, o interessante no filme “A chegada” de Denis Vilenneuve é que o roteiro, baseado no conto Story of Your Life, de Ted Chiang, destaca a linguagem como o fator decisivo para um movimento de entendimento do outro, mostrando que a falta de comunicação pode definir a diferença entre a paz e a guerra no mundo.

A história começa com as recordações da Dra. Louise Banks (Amy Adams), que perde a filha adolescente para uma forma rara de câncer. Lingüísta renomada, professora na Universidade de Berkeley (EUA), Louise começa a narrar os acontecimentos que se seguiram a partir da chegada desses seres alienígenas.

Doze naves extraterrestres, em forma de concha, chegam misteriosamente e se espalham por todos os continentes. A tentativa de comunicação provoca o surgimento de várias equipes de cientistas ao redor do mundo. Contudo, o excesso de controle das informações pelos governos, impedindo a livre cooperação entre os cientistas, dificulta o avanço da comunicação com os alienígenas, aumentando a tensão belicosa. Em alerta, países como China, Rússia, França e Coreia, além do próprio EUA, preparam-se para uma guerra mundial iminente.

Procurada pelo coronel Weber (Forest Whitaker) da Inteligência Militar do governo norte-americano, a Dra. Banks (Amy Adams) vai liderar um grupo de lingüistas e se juntar ao físico Ian Donnelly (Jeremy Renner), e sua equipe, para tentar decifrar a mensagem dos alienígenas e descobrir qual o propósito deles estarem ali. Várias tentativas são feitas, sem sucesso, numa corrida contra o tempo. Todavia, somente quando Louise perde o medo e tenta se aproximar fisicamente dos alienígenas, é que o processo comunicativo realmente começa a acontecer. Sem entender a linguagem oral alienígena, composta de sons gulturais, Louise parte para a simbologia visual, através de signos lingüísticos, apresentando seus significantes e significados, na construção de mensagens simples, na tentativa de uma relação comunicacional com os seres alienígenas para compor fragmentos de um discurso extraterrestre.

Em cada novo encontro, Louise vai descobrindo que essa linguagem é construída numa ordem não linear, ou seja, eles sabem o fim da frase enquanto escrevem o começo, como num palíndromo. O que reflete o modo como eles entendem o tempo e a sua visão de mundo. Não há passado e nem futuro, mas um presente contínuo, onde a ordem temporal é totalmente entrelaçada, alinear. À medida que Louise vai aprendendo essa nova linguagem, vai sonhando com ela e tendo visões do passado e do futuro, remetendo-a também ao processo de aprendizado da língua na infância. Daí a escolha narrativa fílmica, de sucessivos lapsos temporais, de flashbacks e flashfowards, para transpor visualmente o processo mental que Louise está vivendo, das sinapses cerebrais que estão sendo desenvolvidas, revivendo momentos com sua filha Hannah, conectando a personagem com o modo de pensar alienígena.

A premissa lingüística do filme é baseada na hipótese de Sapir-Whorf, de que a língua que falamos determina o modo como enxergamos o mundo, possibilitando que ao aprender um idioma possamos pensar e até sonhar com ele, interferindo em nosso modo de pensar.  O processo comunicativo, entretanto, vai além da linguagem falada e escrita, mas se utiliza de outros padrões de comunicação não-verbal, como a mímica, os gestos e até telepatia. É nesse contexto que o trabalho dos personagens Louise e Ian se desenvolve, utilizando as ciências da lingüística e da matemática como ferramenta de conhecimento para poder interpretar a mensagem dos seres alienígenas, ainda que correndo os riscos de ruídos, ou seja, falhas no entendimento desse processo comunicacional.

O longa mostra os EUA como uma nação belicosa, porém um pouco mais ponderada que as demais, na figura paterna do coronel Weber (Forest Whitaker) e do agente Halpern (Michael Stuhlbarg). Talvez um dos erros do filme, já que a imagem da intolerância construída recai principalmente sobre países historicamente socialistas como Rússia, China e Coreia do Norte. A solução, contudo, está no esforço de Louise, a única pessoa capaz de impedir a deflagração de uma tragédia nuclear. Ideologicamente, nada mais coerente com a premissa do individualismo capitalista. Numa análise mais ampla, poderíamos questionar quem realmente é o alienígena na história, como uma metáfora do “outro”, aquele indivíduo que pensa de um modo diferente de nós, que nos é estranho, politicamente falando, e que muitas vezes consideramos como um inimigo.

O filme é um olhar sobre a intolerância política, a importância da ciência e da comunicação nos processos de paz, além de ser uma visão do homem como parte de uma engrenagem maior, universal, numa perspectiva cíclica do tempo, em que vida e morte, início e fim se confundem. O final é surpreeendente.


Avaliação do filme: Muito Bom.

Elisabete Estumano Freire.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

JACK REACHER: SEM RETORNO (CRÍTICA)

JACK REACHER: SEM RETORNO (CRÍTICA)

O filme estreia nos cinemas no dia 24 de novembro.
No segundo filme da franquia, o policial militar Jack Reacher (Tom Cruise), retorna a Washington para encontrar a major Susan Turner (Cobie Smulders), mas é informado que ela foi presa por traição devido a uma mal sucedida missão no Afeganistão. Certo de sua inocência, ele decide investigar o caso e ajudar a amiga, que escapa de uma tentativa de assassinato dentro do próprio presídio militar. Fugitivos, Jack e Susan precisam descobrir quem estaria interessado em eliminá-los. Para complicar ainda mais a situação, Jack é réu numa ação de reconhecimento de paternidade de uma adolescente, que também se torna alvo de assassinos.
Baseado no Best-seller “Jack Reacher: Never Go Back”, de Lee Child, que já vendeu mais de 100 milhões de livros em todo o mundo, o filme é mais um triller de ação sobre teoria da conspiração dentro do próprio exército norte-americano, envolvendo tráfico ilegal de armas e drogas. Assim como no primeiro filme da franquia (Jack Reacher: o último tiro), o ex-agente especial Reacher mostra porque é reconhecido por suas habilidades como investigador e ex-combatente militar. Entretanto, a nova sequência ganha um tom mais emotivo com a presença da suposta filha de Reacher, a rebelde Samantha (Danika Yarosh), com quem Reacher estabelece uma relação protetora. A personagem arredia, que se especializa em praticar pequenos furtos, torna-se parceira da major Turner e de Jack Reacher após escapar de uma emboscada e perceber que não tem outra saída a não ser colaborar com seus novos protetores.Sugestionado pela ideia de ser o possível pai da garota, ojusticeiro solitário começa aidentificar na adolescente características de sua própria personalidade.
Apesar do carisma de Cruise e Smulders, a tentativa de erotização entre os dois personagensé propositadamente morna. Como resultado é Danika Yaroshquem rouba a cena, construindo com o “herói” um vínculo afetivo, ainda que mais ameno.
O longa mantém as características do gênero, com muitas cenas de luta, explosõese perseguição de carros, em que Reacher e Susan combatem seus inimigos que tem relações diretas com agentes do governo norte-americano. O roteiro também foca na questão de gênero dentro das corporações militares, através do posicionamento da personagem major Susan,que não aceita ser parte passiva nas ações de campo, entrando em conflito com Reacher. O papel da mulher, como mãe e esposa dedicada, é questionadoe desconstruído dentro da narrativa, assim como a paternidade. Apesar de entender a fúria e o inconformismo de Turner, que deseja ser reconhecida como mulher e profissional militar, Reacher admite suas limitações, arraigadas ainda a um machismo tradicional, causando um impasse entre os dois personagens.
Com direção de Edward Zwick, o filme ainda tem no elenco Austin Hébert, Patrick Heusinger, Aldis Hodge, Holt McCallany e Robert Catrini. 
Avaliação: Bom.

Elisabete Estumano Freire.

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