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domingo, 18 de outubro de 2015

CINE MEMÓRIA - O DESAFIO de Paulo César Saraceni


Um jovem jornalista desencantado com a ditadura no Brasil vive um relacionamento amoroso conturbado com a esposa de um rico industrial. Retrato de uma época, o filme “O Desafio”, de Paulo César Saraceni, apresenta os conflitos de uma parte da intelectualidade brasileira, que sonhava com a utopia da revolução socialista e do combate ao imperialismo capitalista, frente ao cenário político brasileiro após o golpe civil-militar de março de 1964.

Terceiro longa roteirizado e dirigido por Saraceni, “O Desafio” foi filmado em apenas 13 dias, com câmera na mão, baixo orçamento e muito improviso. O resultado foi um filme denso, que questionava os rumos do país e da sociedade brasileira mergulhada na ditadura. O enredo narra a história do personagem Marcelo (Oduvaldo Viana Filho), um jovem jornalista e pretenso escritor que possui um relacionamento com Ada (Isabela Cerqueira Campos), uma mulher madura, esposa de um industrial da tecelagem. Com o golpe militar, Marcelo traz para o relacionamento suas angústias, resultante de suas convicções políticas e das diferenças de classe social entre os dois amantes, ao mesmo tempo que se desencanta com a utopia do processo revolucionário brasileiro.

Nos anos 1960, o mundo vivia a efervescência dos conflitos ideológicos sob a tensão geopolítica de um confronto entre EUA e URSS (atual Rússia). Era um momento em que a intelectualidade da esquerda brasileira, que se nutria dos paradigmas de um processo revolucionário de independência da América Latina contra o imperialismo norte-americano, encarava a realidade da intervenção militar nos rumos políticos do país. O filme traz esse clima de tensão, do desalento e do pessimismo que se abatia na intelectualidade de esquerda, e a representação do antagonismo entre os interesses da burguesia e da classe popular.

Saraceni escreveu, através de imagens, um verdadeiro manifesto contra a opressão política e a favor da esperança. Era um momento de ruptura, tanto para o personagem Marcelo quanto para a esquerda brasileira. Não era mais possível negar a realidade e viver do passado, mas era necessário tomar uma atitude perante o futuro e não se deixar corromper. Este era o grande desafio. Nas palavras da canção de Edu Lobo, era “um tempo de guerra, um tempo sem sol”.

“O Desafio” foi rodado em maio de 1965, durante o governo Castelo Branco, cerca de um ano após o golpe militar, na fase mais branda da censura política, o que explica a forma mais aberta com que os personagens falam sobre a ditadura no país (o enrijecimento da censura ocorreria a partir da publicação do Ato Institucional nº 5, em dezembro de 1968). Apesar de ser uma ficção, o filme documenta os principais acontecimentos políticos da época, como a morte de Kennedy, a revolução cubana e a guerra do Vietnã. Denuncia a insegurança, o medo, a perseguição política daqueles que buscam a justiça, lutam por seus direitos e pela democracia no Brasil. Também aborda o cerceamento do cinema nacional e da imprensa brasileira pelos organismos oficiais de censura, através das manchetes dos jornais e de noticiosos do rádio, como o anúncio da cassação dos direitos políticos de deputados federais, estaduais e de homens públicos brasileiros, entre os quais os ex-presidentes Jânio Quadros, Juscelino Kubistcheck (o adeus do “peixe-vivo”) e João Goulart, exilado no Uruguai. O filme apresenta ainda trechos do célebre “Show Opinião”, espetáculo musical de teatro engajado, escrito por Oduvaldo Viana Filho, Armando Costa e Paulo Pontes e dirigido por Augusto Boal, encenado no Teatro de Arena, no Rio de Janeiro, com imagens das perfomances de Maria Bethânia (Carcará) e Zé Kéti (Notícia de Jornal).

Saraceni foi um dos fundadores do movimento cinemanovista, juntamente com Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Gustavo Dahl, Joaquim Pedro de Andrade, entre outros cineastas influenciados pelo neo-realismo italiano, pela nouvelle vague francesa e pelo cinema russo. Além de “O Desafio”, o cineasta realizou mais 13 trabalhos entre longas de ficção, documentários e curtas. Foi premiado no Festival de Brasília por “Capitu” (1967 - candango de melhor roteiro), “A Casa assassinada” (1970 - melhor filme e direção) e “O viajante” (1998 - prêmio especial do júri), filme pelo qual recebeu ainda o prêmio especial do júri no Festival de Cinema Brasileiro de Miami e o prêmio FIPRESCI, no Festival de Moscou. Seu último trabalho foi “O gerente” (2011), estrelado por Letícia Spiller e Ney Latorraca. Paulo César Saraceni faleceu em 14/04/2012, no Rio de Janeiro, vítima de um acidente vascular cerebral (AVC).


Elisabete Estumano Freire.

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