sábado, 24 de outubro de 2020

Monica Iozzi estreia na Mostra SP com MAR DE DENTRO

 



Em vez de romantizada, a maternidade humanizada

 

** Dirigido por Dainara Toffoli e produzido por Eliane Ferreira, filme é protagonizado por Monica Iozzi. “Mar de Dentro” fez sua première mundial em junho no festival Cine Las Americas.

** A estreia nacional do longa ocorre em outubro na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, na qual concorre ao troféu Bandeira Paulista, dedicado aos primeiros e segundos filmes dos cineastas que integram a seleção oficial do evento

** No dia 3 de novembro, Mar de Dentro tem sessão no Belas Artes Drive In às 21h15  


“Mar de Dentro” reflete, por meio da história particular de Manuela, as dúvidas e inquietações que rondam muitas mulheres ao redor do mundo a respeito da maternidade.

 

A trama acompanha a trajetória de Manuela, uma profissional liberal, que vive em uma grande cidade, tem uma carreira estabelecida e uma vida amorosa livre. Mas quando engravida de um colega de trabalho, encara uma mudança de vida cujo impacto não é capaz de controlar. As transformações em seu dia-a-dia vão desde as perdas em relação ao cargo que ocupa no trabalho, as questões emocionais, as transfigurações e oscilações em seu corpo e até mesmo uma inesperada solidão. Enquanto lida com tantos desafios, ela se defronta com uma fatalidade que afeta ainda mais seu destino. 

 

Entre tantas transformações, Manuela, afinal, quer aprender a ser e a se descobrir mãe, mesmo sem, a priori, gostar da maternidade.

 

Assim, o filme propõe que o espectador mergulhe e tenha uma vivência na experiência única daquela mulher. Uma mulher que, sufocada pela rotina extenuante do bebê, acha que tem que cuidar de tudo sozinha. E quando precisa voltar a trabalhar, terceiriza os cuidados de Joaquim para outras mulheres, que também terceirizam os cuidados dos seus, nessa rede de mulheres que cumprem tripla jornada para manter o emprego e vencer os boletos do final do mês.

 

Escrito e dirigido por Dainara Toffoli, “Mar de Dentro” marca a estreia da cineasta na direção de longas de ficção e traz Monica Iozzi no papel de Manuela. “Com ela, foi um encontro muito especial. Quando conheci a Monica, pensei: “Quero filmar com ela!. Ela é inteligente, brilhante, questionadora, cheia de personalidade e força, mas também tem uma doçura e uma generosidade imensa. Além disso, tem a mesma idade da personagem. "A troca com ela é um dos pilares do filme”, comenta a diretora.

“Mar de Dentro é como se a gente tivesse uma janela de um ano, mais ou menos, na vida de uma mulher. É um convite à contemplação do processo de transformação na vida dessa mulher. É um filme de nuances, com muitos silêncios”, observa Monica Iozzi.

Para a atriz, o fato de ser uma história que mostra uma mulher que vive uma situação limite a atraiu muito para o projeto. “Mas o primeiro ponto que me atraiu é que a Manu não tem o perfil que estamos acostumados a ver das mulheres. Ela é uma mulher realmente que adora o trabalho, que é bem sucedida e muito exigente. E ela também tem uma relação livre com um cara e está tudo bem com isso também. Então, me atraiu muito poder mostrar uma mulher assim com um olhar mais contemporâneo.”

 

Processo de Autodescoberta

O equilíbrio entre força e doçura é uma das chaves da narrativa de “Mar de Dentro”. Ainda que a situação financeira de Manuela seja confortável, ao encarar a maternidade praticamente sozinha em uma cidade que mais isola do que une as pessoas, ela vive um processo crucial de autodescoberta. Em vez de romantizado, o processo de se tornar mãe é visto com humanidade e com todas as contradições que ele traz. “Eu não sou mãe, mas convivo muito próxima com minha irmã, que é mãe. E é importante de dizer, que a maternidade do filme é uma maternidade real, uma maternidade visceral. E é uma situação que acho que muitas mulheres vivem, que é muito comum”, afirma Monica.

 

Dainar[e3] a acrescenta que sempre quis tratar de temas que têm a ver com  sua realidade. “Como diz o Jorge, (Furtado, diretor com quem a cineasta trabalhou no início da carreira), citando Tolstói (Leon, autor russo), pra ser universal, a gente tem que falar da nossa aldeia. Sinto que ao falar de uma realidade tão próxima a mim, e tão pouco abordada no cinema, também falo com o mundo.”

 

A realidade a qual a diretora se refere é a das tantas mudanças, desafios e processos solitários que a maternidade e o período logo após o parto impõem. Para Dainara, que é mãe e encarou uma transformação tão intensa quanto a de Manuela, tratar da maternidade e do período pós-parto, sem romantizar a questão, era crucial. "No Brasil, quando a mulher decide ter um filho, ela sabe que é uma guerra que vai enfrentar sozinha. A licença paternidade é de cinco dias. Um bebê exige 24 horas de atenção. Ter um filho custa caro e não há uma rede de apoio. Como ser mulher e mãe neste mundo capitalista, altamente competitivo, extremamente desigual e privatizado? "

 

Monica aponta que há uma pesquisa que revelou que aproximadamente 47% das mulheres são demitidas ou então acabam perdendo posições na hierarquia do trabalho nos dois anos seguintes à maternidade. “É justamente em tudo isso que Mar de Dentro dá uma pincelada.”

 

Para Dainara, tratar das estatísticas entre maternidade e mercado de trabalho é ponto crucial. A cineasta cita também a pesquisa da FGV (Fundação Getúlio Vargas): “Segundo dados da FGV a queda no emprego se inicia imediatamente após o período de proteção ao emprego garantido pela licença (quatro meses). Após 24 meses, quase metade das mulheres que tiram licença-maternidade está fora do mercado de trabalho, um padrão que se perpetua inclusive 47 meses após a licença. A maior parte das saídas do mercado de trabalho se dá sem justa causa e por iniciativa do empregador.(...) Trabalhadoras com maior escolaridade apresentam queda de emprego de 35% 12 meses após o início da licença, enquanto a queda é de 51% para as mulheres com nível educacional mais baixo.”

 

 

Assunto Tabu

 

Entre tantas questões que envolvem a maternidade, há ainda o “mito religioso da mãe sagrada.” Sobre isso, Dainara observa: “Quando vemos, estamos tentando dar conta de tudo e abrindo mão das nossas aspirações. Com tanta idealização, o que sobra para a mulher é cobrança, cansaço e um sentimento de culpa constante.”

"Falar sobre maternidade ainda é um tabu. Depois de anos envolvida neste projeto, percebo que ainda existe um preconceito enorme com o tema, tanto na nossa sociedade quanto no audiovisual. Por isso, quis mostrar o puerpério, algo absolutamente do espaço da mulher, que 100% das mães vivem, e sobre o qual acho que falta reflexão. É um momento de um outro estado emocional e físico, em que entramos em contato com emoções, mas também com o animal em nós, são hormônios, leite, peito que dói, noites mal dormidas..., é horrível e belo ao mesmo tempo, contraditório como a vida", completa ela.

Para Dainara, há uma solidão e há até mesmo um luto na maternidade. “Eu, que quando engravidei, aos 37 anos, já tinha perdido meus pais, vejo relações neste ciclo de nascimento e renascimento que o processo traz. E não queria tratar da maternidade idealizada, mas sim a real, a que a mulher tem de lidar com questões quase animais mesmo”, explica.

 

Graduada em jornalismo, Dainara tem longa carreira na direção, transitando entre as áreas de documentário, ficção e publicidade. Mar de Dentro é seu primeiro longa-metragem.

 

 

Produção

 

Para levar adiante uma história tão autoral quanto universal, era preciso uma equipe de produção que entendesse as especificidades de um projeto como “Mar de Dentro”. Quem assina a produção do longa é Eliane Ferreira, à frente da Muiraquitã Filmes. Para a produtora, era um desejo antigo realizar um filme que tratasse a maternidade de forma não romantizada e, ao mesmo tempo, não deixasse de falar das questões eternas e contemporâneas que a condição traz. “Invisto em projetos com os quais me identifico, histórias que quero contar. “Mar de Dentro” é assim”, comenta Eliane.

 

Ela ainda conta que quando começou a desenvolver o longa, o maior desafio era convencer que valia à pena investir em um filme produzido por uma mulher, dirigido por uma mulher sobre uma questão de mulheres. “Levamos muitos anos, houve muitos editais em que a gente chegava perto, mas não conseguia ganhar. Estávamos muito fora da curva. Ganhamos o primeiro edital, que foi muito importante, o FSA, e seguimos buscando a verba total necessária. Em paralelo, trabalhamos e amadurecemos o roteiro. Enquanto o filme foi sendo concretizado, a questão da presença da mulher no cinema foi crescendo, ganhando força e temas como o de “Mar de Dentro” foram ganhando atenção”, analisa Eliane.

“Este é um filme de mulheres. Há dez anos ninguém falava sobre isso. Tateamos um lugar que depois se tornou mais que um assunto, virou uma luta. Foi um processo duro, mas recompensador”, finaliza.

Hoje, “Mar de Dentro” se insere em um contexto global que traz cada vez mais olhares e temas diversos ao cinema. Em tempos em que se discute a questão da paridade de gêneros tanto na frente quanto atrás das câmeras, um projeto que trata da maternidade com contundência ganha destaque em um mercado cada vez mais plural, em que narrativas levam em conta que metade do público é formado por mulheres.

 

No Brasil, “Mar de Dentro” tem estreia prevista para 2021. 

 

 

 

 

 

Sinopse

Manuela é uma profissional de sucesso que, ao se descobrir grávida de um colega de trabalho, tem de lidar com a transformação de seu corpo e sua vida. Em meio a tantos desafios, ela se defronta com uma fatalidade que afetará ainda mais seu destino. Quando o bebê nasce, ela tem de aprender a ser mãe mesmo sem gostar, a priori, da maternidade.

 

 

Dainara Toffoli – Diretora

Iniciou sua carreira no aclamado Ilha das Flores, de Jorge Furtado, depois disso exerceu diferentes funções até roteirizar, junto com José Roberto Torero e Gustavo Cascon, e dirigir, junto Diego de Godoy, seu primeiro curta, Um Homem Sério. A adaptação de Machado de Assis, ganhou cinco prêmios no Festival de Gramado, entre eles, Melhor Filme pelo Júri Popular e Melhor Ator para Ari França, além de ter sido selecionado para os festivais de Clermont Ferrant, Roterdã, Vila do Conde, entre outros. Dainara coproduziu e dirigiu o média metragem Dona Helena, sobre a vida da violeira Helena Meirelles, eleito o Melhor Filme no II FEMINAFEST e selecionado para a mostra competitiva do É Tudo Verdade e para festivais na Holanda, Espanha, EUA, Bélgica e Finlândia. Em televisão, Dainara criou, roteirizou e dirigiu a comédia Amigo de Aluguel (Universal) e foi uma das diretoras das séries Antônia (Globo); Lili, a Ex (GNT); Dia UM (HBO);. Recentemente dirigiu a primeira temporada da, ainda inédita, As Five (Globo Play). A série, de dez episódios, é um spin off da novela Malhação Viva a Diferença, ganhadora do Emmy International Kids em 2019.

 

 

Muiraquitã Filmes

A Muiraquitã Filmes é uma produtora brasileira dedicada a produzir filmes e séries de ficção e não-ficção com perspectivas únicas e autênticas, em colaboração com cineastas talentosos e parceiros em todo o mundo.

Suas mais recentes produções foram os documentários “Fico te devendo uma carta sobre o Brasil” de Carol Benjamin, que estreou no IDFA e foi selecionado para o festival É Tudo Verdade, recebendo menção especial do júri em ambos, feito em coprodução com a Daza Filmes e a VideoFilmes; "Cine Marrocos" de Ricardo Calil, que estreou no Dok Leipzig e ganhou o Golden Dove da Next Masters Competition, além de prêmios de melhor documentário nos festivais É Tudo Verdade e Festival Internacional de Guadalajara; e o longa ficção “Querência” de Helvécio Marins Jr. que teve sua estreia na seção Forum do Festival de Berlim e recebeu o prêmio de melhor filme no Festival Internacional de Jeonju.

A Muiraquitã Filmes também produziu os longas “Vermelho Russo” de Charly Braun, completamente filmado na Rússia, e o documentário “A Luta do Século” de Sergio Machado, ambos estrearam no Festival do Rio, ganhando os prêmios de melhor roteiro e melhor documentário, respectivamente. Produziu ainda o documentário “Fabricando Tom Zé” de Décio Matos Jr., vencedor do prêmio de melhor documentário pelo júri popular no Festival do Rio e na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

Em fase de pós-produção, estão os longas “Bala sem nome” de Felipe Cagno, “Sol” de Lô Politi e os documentários “Os Arrependidos” de Ricardo Calil, “Somos o que Perdemos”, de Heloisa Passos e “Testament”, de Meena Nanji e Zippy Kimundu, que foi selecionado para o IDFA Forum 2020.

Dos próximos projetos a serem produzidos, podemos destacar: “Aurora” do renomado diretor Karim Aïnoz, a série documental “Pierre Fatumbi Verger” de Sérgio Machado, e o documentário “Sobre Memória e Esquecimento”, de Ricardo Martensen, ganhador das bolsas de desenvolvimento do Sundance Documentary Fund e do IDFA Bertha Foundation.

 


 

Ficha Técnica

 

MAR DE DENTRO

 

FICÇÃO / DRAMA / LONGA METRAGEM / 90'

Uma produção: Muiraquitã Filmes e Elástica Filmes.

Direção: Dainara Toffoli

Produção: Eliane Ferreira, Pablo Iraola e Dainara Toffoli

 

Elenco: Monica Iozzi, Rafael Losso, Gilda Nomacce, Fabiana Gugli

Participação Especial: Zé Carlos Machado e Magali Biff

Roteiro: Dainara Toffoli e Elaine Teixeira;

Produção Executiva: Eliane Ferreira

Direção de fotografia: Glauco Firpo

Direção de Arte: Fernando Timba

Montagem: Willem Dias, AMC

Edição de som: Beto Ferraz

Mixagem: André Tadeu

Trilha Sonora: André Namur e Yaniel Matos

Figurino: Aline Canela

Caracterização: Britney Federline

Produção de Elenco: Diana Galantini


FONTE: FLAVIA GUERRA

 


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