domingo, 27 de janeiro de 2019

´Vidro' (Glass) encerra trilogia psicológica de M. Night Shyamalan

Em cartaz nos cinemas brasileiros desde o dia 17 de janeiro, filme aprofunda questionamento sobre o poder da indústria cultural na psiquê dos indivíduos e encerra trilogia iniciada com Corpo Fechado (2000) e Fragmento (2016). 

[Contém spoiler]

Thriller psicológico sobre seres humanos que acreditam possuírem superpoderes de personagens em quadrinhos, Vidro (Glass) finaliza a trilogia de M. Night Shyamalan iniciada com Corpo Fechado (2000) e Fragmentado(2016). O novo longa-metragem surpreende pelo modo como o cineasta construiu a apoteose de seus personagens. 

Há quase vinte anos, muito antes da recente explosão de filmes da Marvel e da DC Comics que atualmente dominam o mercado cinematográfico, Shyamalan introduziu em Corpo Fechado um novo olhar sobre a temática de super-heróis. Para além das clássicas narrativas de personagens dos gibis, o cineasta de origem indiana criou uma trama psicológica questionando o poder da influência da indústria cultural das HQs na psiquê de crianças, jovens e adultos. Abordou também os transtornos de personalidade e o poder letal da mente psicótica, assim como possíveis consequências do trauma psicológico em indivíduos que sofreram algum tipo de abuso ou violência sexual, física ou mental.

Vidro (Glass), escrito e dirigido por M. Night Shyamalan, lida com a frustração e o desejo de superação das limitações humanas, mas também com o medo que a transposição dessas barreiras pode causar na sociedade. O filme é o retorno de Mr. Glass, persona criada por Elijah Price (Samuel L. Jackson), em Corpo Fechado. O personagem, um fanático colecionador de quadrinhos que sofre de osteogênese imperfeita (doença de Ekman-Lobstein), também conhecida como “ossos de vidro”, cresceu acreditando ser a mente criminosa mais brilhante que já existiu. Incentivado pela mãe superprotetora, ele tenta compensar suas frustrações, oriundas da frágil condição física, manipulando pessoas e situações para comprovar sua teoria de que os super-heróis não são apenas pura ficção, mas são reais e vivem entre nós.

Numa sociedade em que o ordinário é visto como algo desprezível e inútil, quase todos buscam o reconhecimento de suas qualidades. Geralmente, almejam serem percebidos como seres humanos especiais e destinados a uma grande missão. A figura do super-herói pode ser encarada como a personificação desse desejo, assim como a do vilão, desafiando as regras e limites impostos pela sociedade. Se durante séculos as mitologias dos povos antigos e as narrativas fantásticas, com seus heróis e feitos, foram criadas como uma tentativa de explicar o mundo e suprir as desilusões do ser humano, contemporaneamente, no universo imaginário de milhares de crianças e jovens, as narrativas dos super-heróis dos quadrinhos cumprem papel semelhante. Para além da fruição lúdica, apresentam um mundo fantástico povoado por seres alienígenas e mentes brilhantes, bandidos e heróis disfarçados de pessoas comuns. Um lugar seguro e de refúgio, onde um adolescente que, por exemplo, sofra constante bullying pode ser reconhecido por suas qualidades, adquirir superpoderes ou se sentir protegido por um verdadeiro paladino da justiça.

O novo longa não é centrado na ação, mas na direção de atores, revelando um jogo de controle e poder entre os personagens. Se em Corpo Fechado (2000), o personagem de David Dunn (Bruce Willys) era sugestionado pelo maquiavélico Elijah Price (Samuel L. Jackson) a acreditar que possuía superpoderes, assumindo a personificação do herói; Em Fragmentado(2016), Kevin Wendell Crumb e suas múltiplas personalidades (James McAvoy) eram desafiados pela adolescente Casey Cooke (Anya Taylor-Joy), num contraponto entre o medo, a dor e a sanidade, elevando à enésima potência as consequências da criação de monstros mentais por indivíduos afetados por traumas; Já em Vidro (Glass), Dunn, Price e Crumb são colocados à prova, chegando a duvidar de si, pela instigante presença da Dra. Ellie Stapler (Sarah Paulson). O embate entre a negação e a afirmação da existência de seres extraordinários é o ponto central da trama.

A personagem é uma renomada psiquiatra que criou um método experimental para estudar pacientes que sofrem do delírio de serem super-heróis de histórias em quadrinhos. Ela é o elo que reúne Dunn, Price e Crumb. Enclausurados num hospital psiquiátrico, eles serão testados e sugestionados pela Dra. Stapler, cujos métodos são bastante questionáveis. O relacionamento que se estabelece entre eles é a espinha dorsal do filme de Shyamalan.

Em Vidro (Glass), Price ganha novos nuances, revelando-se como o principal opositor da Dra. Stapler e do sistema que ela representa. O personagem não pode ser encarado apenas como um supervilão, mas como o herói de si mesmo e o porta-voz de uma espécie de teoria da conspiração. Para Samuel L. Jackson, o personagem não mudou, mas seu modo de pensar está mais claro aos olhos do espectador: “Ele continua o mesmo cara. Elijah é ainda muito calculista, continua muito observador, muito forte. Ele apenas foi isolado, o que deu a ele mais tempo para formular opiniões, formular planos e para cavar ainda mais aquilo em que ele acredita.”

De acordo com a atriz Sarah Paulson, o cineasta queria uma interpretação que demonstrasse a grande empatia da psiquiatra com seus pacientes: “Ela é um ser humano profundamente afetado pelas pessoas que estão sentadas ao seu redor.” Entretanto, a personagem tenta controlar seus pacientes através de toda espécie de manipulação, utilizando pessoas próximas a eles: o filho de David Dunn, Joseph (Spencer Treat Clark); a mãe de Elijah, a Sra. Price (Charlayne Woodard); e Casey Cooke (Anya Taylor-Joy), a única sobrevivente da “horda”, a mais letal das personalidades de Kevin Wendell Crumb (James McAvoy).

Numa das cenas mais surpreendentes, a Dra. Ellie Stapler presencia fascinada, e em minutos, as múltiplas personalidades de Kevin Wendell Crumb, que sofre de transtorno dissociativo de personalidade (TDI). A transição mostra a versatilidade de James McAvoy e o domínio na interpretação dos personagens, exigindo um grande esforço do ator: Segundo McAvoy: “Kevin é um cara que foi terrivelmente abusado por sua mãe e como resultado sua mente foi fragmentada e dissociada. Outras 23 pessoas surgiram disso. Ele é alguém que está numa espécie de coma por um longo período de sua vida, enquanto outras pessoas tem consciência de seu corpo. Ele é um dos muitos que vivem no corpo que era para ser somente dele”.

Desde Corpo Fechado, David Dunn instigado por Elijah e com o apoio de seu filho Joseph (Spencer Treat Clark), assumiu a crença de possuir superpoderes e devotou sua vida para lutar contra o crime, tornando-se “O vigilante”. Em Fragmentado, com a notícia do sequestro de jovens estudantes, a personagem “Horda”, uma das múltiplas personalidades de Crumb, é revelada ao mundo. Em Vidro (Glass), Crumb e suas múltiplas personalidades finalmente tomam conhecimento da verdadeira identidade do “Vigilante”. A rivalidade aumenta quando ambos são desafiados por Mr. Glass.

Para Bruce Willis, que já havia trabalhado com M. Night Shyamalan em O sexto sentido (1999), filme que catapultou o cineasta de origem indiana ao estrelato com seis indicações ao Oscar, incluindo melhor diretor, filme e roteiro original, revisitar o personagem de Corpo Fechado (2000) foi uma experiência bem-vinda: “Muito raramente um ator tem uma oportunidade como essa. Night criou personagens únicos, memoráveis e bastante pessoais. Eu estava tão empolgado em interpretar David Dunn como na primeira vez que o interpretei.”

Como bônus, Shyamalan incorporou cenas inéditas de Corpo Fechado em Vidro (Glass), representando as memórias de David Dunn e seu filho Joseph. Segundo o cineasta “Isso foi maravilhoso, porque essas cenas cortadas em Corpo Fechado ficaram na minha mente, e eu sempre pensava que essas cenas poderiam ser aproveitadas em outro filme se eu escrevesse do jeito certo.” E o cineasta continua: “Nós realmente ficamos entusiasmados em colocá-las no filme e a audiência não podia acreditar no que via. Numa cena temos um garoto [Spencer Treat Clark], e então você o vê aos 25 anos de idade na cena seguinte. Não é CGI [efeitos especiais]. Realmente são eles. E a mesma coisa com Bruce Willis. Ver alguém 18 anos depois diante de você é uma coisa poderosa.”

Em Vidro (Glass), o cineasta questiona não somente o poder da indústria cultural sobre o imaginário popular, mas realiza uma reflexão sobre a desconstrução de crenças e padrões, revelando intencionalidades outras por detrás dos discursos aparentemente inofensivos. Isso inclui tanto o discurso cientificista, o jornalístico, o lúdico literário, quanto o próprio discurso cinematográfico. Demonstra a dubiedade de quem detém o poder da fala, colocando o espectador numa posição não somente de fruidor da diegese fílmica, mas o instiga ao descortinamento das diferentes camadas da narrativa e de seus personagens.

O cineasta, claramente inspirado em Hitchcock, focou nos distúrbios de personalidade e os traumas psicológicos. A distância na realização dos três filmes, quase 20 anos entre Corpo Fechado (2000), Fragmentado (2016) e Vidro (2019), mostram o tempo de maturação dispendido por Shyamalan na concepção de verdadeiras obras primas: “Eu quero que cada filme se sustente pelo seu poder, sua linguagem, sua originalidade. (...) Os três filmes honram uns aos outros, como  irmãos e irmãs.” A originalidade da visão de Shyamalan, de criar na virada do século XXI, filmes de uma trilogia única sobre as influências das narrativas de super-heróis produzidas pela indústria cultural na psiquê de crianças, jovens e adultos, não deixa de ser também uma espécie de metalinguagem do poder das próprias narrativas cinematográficas.

Elisabete Estumano Freire.

* Este texto contém fotos e livre tradução de trechos de entrevistas (originalmente em inglês) dos atores e do cineasta M. Night Shyamalan  extraídas de material de divulgação oficial do filme Vidro (Glass),  fornecido pela Disney Company Brasil. Fonte: Luiz Pattoli. 




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