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domingo, 22 de outubro de 2017

A mitologia de Blade Runner 2049 e o contexto mundial


A continuação do clássico de sci-fiction da década de 1980, Blade Runner – o caçador de androides, de Ridley Scott, é muito mais do que uma simples sequência. Dirigido por Denis Villeneuve (A chegada, Sicário, Prisioners), o longa é por si só um acontecimento cinematográfico. Blade Runner 2049 pode ser metaforicamente comparado a pedra da roseta encontrada pela expedição de Napoleão Bonaparte ao Egito. Isso porque o novo longa não somente explica os acontecimentos do filme original, mas aprofunda a discussão sobre a natureza humana, as possíveis consequências de uma hecatombe nuclear e os limites do uso da tecnologia.

Blade Runner é uma adaptação cinematográfica da obra de de Philip K. Dick, Do Androids Dream of Electric Sheep?, publicado em 1968. A distensão temporal de quase cinquenta anos entre o livro, a sua primeira adaptação cinematográfica por Ridley Scott (1982) e sua continuação, dirigida por Villeneuve (2017), não prejudicou o interesse do público pelo universo imaginado pelo escritor norte-americano. A história continua contemporânea, já que os fatos políticos e científicos que a inspiraram parecem se perpetuar no tempo, com o acréscimo de novos acontecimentos.

O filme original de Ridley Scott captava bem o espírito da obra de Philip K. Dick. No livro, Do Androids Dream of Electric Sheep? a história se passa no ano de 1992, na cidade de São Francisco (EUA), após uma guerra nuclear, que espalhou uma poeira radioativa provocando a emigração de populações inteiras para colônias fora da terra. Aqueles que permaneceram no planeta viviam enclausurados em cidades decadentes, convivendo com o perigo da mutação genética. Neste cenário caótico, vivendo num mundo pós "Guerra Mundial Terminus", androides foram desenvolvidos para substituir seres humanos e animais. O  personagem central, Rick Deckard, é um caçador de recompensas, infeliz no casamento, convivendo com uma esposa consumista e viciada em estímulos artificiais. Ele aceita matar androides para ter poder e dinheiro, motivo pelo qual é desprezado pela esposa. Deckard os vê apenas como bonecos orgânicos. Seu objetivo é comprar um animal de verdade, símbolo de status dessa nova sociedade, mas termina se apaixonando por Rachel, uma androide Nexus 6. 

O contexto político 

Essa visão pós- apocalíptica do autor sobre a humanidade condiz com o contexto da época. Após o término da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), com a vitória dos Aliados sobre o Eixo, o mundo testemunhou um período de disputas estratégicas entre as principais potências do pós guerra: EUA e URSS. Esse conflito ideológico e indireto entre os dois países estabelecendo blocos militares antagônicos, que também ficou conhecido como "paz armada", foi um período de crescimento na produção de mísseis nucleares. A utilização criminosa de bombas atômicas nas cidades japonesas de Hiroshima e Nagazaki pelo governo norte-americano em agosto de 1945 mostrou  o poder destrutivo de uma guerra nuclear e as consequências para a vida humana no planeta. Com a divisão das áreas de influência política e ideológica no mundo entre norte-americanos e soviéticos tem início a Guerra Fria, cujo palco do primeiro confronto se deu durante a Guerra da Coreia (1950-1953), mantendo ao final as duas Coreias, do Norte socialista e a do Sul capitalista, divididas e independentes. Entretanto, os conflitos entre as lideranças dos dois países nunca cessaram totalmente.

Yuri Gagarin
Na década de 1960, o temor em relação a um novo conflito nuclear crescia. O mundo assistia pela TV intensificação da Guerra Fria, através do rompimento das relações diplomáticas entre EUA e Cuba, a construção do Muro de Berlim, a Guerra dos Seis Dias e a Guerra do Vietnã, provocando inúmeros protestos pacifistas, a contracultura e o movimento hippie. As tensões aumentaram com os assassinatos de líderes como o presidente John F. Kennedy e o ativista Martin Luther King; a revolução cultural comunista na China; Golpes militares e ditaduras na América Latina, assim como os conflitos sangrentos no processo de descolonização da África. Por outro lado, o desenvolvimento da ciência e da tecnologia apresentavam novas perspectivas: o primeiro computador eletrônico com dísco rígido e a invenção do chip, o lançamento do primeiro satélite metereológico pelos EUA, o primeiro transplante de coração, a corrida espacial e o êxito do astronauta soviético Yuri Gagarin,  o primeiro homem a viajar no espaço. Todos esses fatos projetavam uma visão de futuro para a humanidade, ainda que sob o perigo da eclosão de uma nova guerra nuclear. Foi nesta época que Philip K. Dick, observando o contexto mundial, inspirou-se para escrever Do Androids Dream of Electric Sheep? e a história do caçador de androides Rick Deckard.

Ronald Reagan e Margareth Thatcher
Quando o primeiro Blade Runner (1982) de Ridley Scott foi lançadoo contexto político não era menos complexo. Após um período de relativa estabilidade na década de 1970, a Guerra Fria voltava a ser reativada com toda força nos anos 1980 com o projeto "Guerra nas Estrelas" do presidente norte-americano Ronald Reagan, retomando a corrida armamentista. Assim, o mundo continuava assombrado pela eclosão de uma guerra nuclear. A política belicosa de Reagan e Margaret Thatcher para combater o expansionismo soviético aumentava a tensão entre os países, principalmente após a invasão da URSS ao Afeganistão. A crise política que se seguiu a morte de Leonid Brejnev (1982), com sucessivos gestores em um curto espaço de tempo (Iuri Andropov, Konstantin Chernenko), só foi superada com a ascensão de Mikhail Gorbachov (1985) e seu compromisso de distensão política. 

Blade Runner (1982)

Inspirado no romance de Philip K. Dick, Blade Runner (1982) de Ridley Scott colocava em pauta o futuro incerto e sombrio da humanidade. Entretanto, na versão cinematográfica, Rick Deckard é um policial que persegue replicantes NEXUS-6, espécie de androides biológicos, numa Los Angeles pós-nuclear, em 2019. Na época de seu lançamento, o longa causou grande impacto: esteticamente, foi uma revolução misturando o gênero noir à ficção científica, inaugurando o chamado ciberpunk neo-noir; politicamente, apresentava um futuro distópico e sombrio, dominado pela mídia e grandes corporações, em que a máquina substituía o homem. O filme também era quase uma reflexão filosófica sobre o desejo de viver, a fragilidade da condição humana e o medo. A construção desse universo imaginário e futurista influenciou não somente a cinematografia, mas o audiovisual, a literatura e outras formas de arte.


Philip K. Dick

Outras obras ficcionais, ao longo da história da literatura, já apresentaram histórias futuristas em que seres humanos são substituídos por máquinasSe HG.Wells (1866-1946), ao contrário de Mary Shelley (1797-1851) e Julio Verne (1828-1905), foi o primeiro a ter uma visão mais crítica sobre o futuro da humanidade, indo além das conquistas tecnológicas,  Philip K. Dick (1928-1982) ampliou essa análise, questionando a natureza humana e suas relações, contrapondo não somente os avanços da tecnologia, mas discutindo valores como a ética e o direito numa sociedade corrompida e consumista. A mitologia de Blade Runner, de um futuro dominado pelas máquinas num planeta devastado pelas guerras nucleares, é uma releitura da ideia de modernidade ou pós-modernidade diante dos avanços da ciência, da tecnologia e da crise política mundial. 


Ryan Gosling e Ana de Armas
Retomar essa mitologia em pleno século XXI, trazendo Blade Runner de volta aos cinemas foi um projeto audacioso. A ideia de filmar a aguardada sequência chegou à Alcon através do produtor Bud Yorkin, que participou da equipe de produção do filme original de 1982. Consultado, Ridley Scott ficou empolgado com a perspectiva de um novo longa e se associou ao projeto como produtor executivo, em associação com a Alcon Media Group, a Columbia Pictures e Torridon Films. Scott procurou o roteirista Hampton Fancher, que coescreveu o roteiro original de Blade Runner, para desenvolverem o script do novo longa, que também contou com a parceria do roteirista Michael Green. Entre os vários temas que perpassam o primeiro filme, eles queriam explorar a qualidade de vida e a natureza da alma ser ou não exclusivamente humana. Ao ser convidado para dirigir Blade Runner 2049, o diretor Denis Villeneuve ficou emocionado pela confiança em seu trabalho, sabendo da grande responsabilidade que tinha em ser fiel ao espírito do filme original, sua estética e identidade. Entretanto, ele impôs como condição a benção de Ridley Scott, que não apenas o aceitou, dando total liberdade criativa, como se colocou à disposição para ajudá-lo, caso precisasse. Deste modo, a parceria entre os dois diretores foi essencial para a concepção e finalização do filme. Denis se associou ainda ao diretor de fotografia Roger Deakins, o desenhista de produção Dennis Gassner e a figurinista Renne April. A ideia era o comprometimento em honrar a construção visual do filme original. 


Harrison Ford e Ryan Gosling

Blade Runner 2049 sem Harrison Ford não teria a mesma mágica, mas além de trazer o antigo personagem era necessário acrescentar um novo caçador de androides à trama, já que na diegese da obra se passaram 30 anos entre o primeiro e o segundo filme. O ator escolhido foi Ryan Gosling, que assim como todo o elenco ficou apaixonado pelo projeto. Harrison Ford e Ryan Gosling, além de ótimas atuações, contribuíram com muitas ideias, elogiando a direção e a parceria com Villeneuve. O longa contou ainda com as presenças de Ana de Armas, Sylvia Hoeks, Robin Wright, Jared Leto e Dave Bautista. 


Denis Villeneuve e Jared Leto no set de filmagem

As filmagens foram realizadas na Hungria: nos Estúdios Origo, em Budapeste; três estúdios de filmagens do Korda Studios, em Etyek; e em outras locações, em todo o país. Denis evitou ao máximo a computação gráfica e o uso de cromakey, já que prefere trabalhar em set reais, construindo cenários tangíveis para que os atores vivenciassem a experiência e não apenas a imaginassem. O ambiente físico facilitou o trabalho dos atores, que se concentraram no mundo interno dos personagens. 

Os curtas de pré lançamento: Blade Runners 2022, 2036, 2048

Para impulsionar o lançamento de Blade Runner 2049, o diretor Denis Villeneuve pediu para dois artistas criarem três contos oficiais que servem como prequelas do longa, dramatizando eventos que se passam após 2019, quando se passa o primeiro filme, porém antes de 2049. O primeiro deles foi o diretor e escritor Shinishiro Watanabe, famoso por seus animes (Cowboy Bebop, Samurai Champloo e Zankyou no Terror), também responsável pela série ANIMATRIX (2003). O segundo, o diretor Luke Scott (Morgan, Os duelistas, NG83 When we were b boys), filho do próprio Ridley Scott. Os curtas sãoBlade Runner Blackout (2022), um anime de Shinishiro Watanabe; e ainda, 2036: Nexus Dawn, estrelado por Jared Leto, e Blade Runner 2048: Nowhere to run, com Dave Bautista, ambos dirigidos por Luke Scott .

O curta de Watanabe, Blade Runner BlackOut 2022 apresenta os acontecimentos que provocaram o black out que apagou os dados sobre os replicantes Nexus-6 do catálogo. Informa ainda que a Corporação Tyrell lançou a série 8 na terra e colônias extraplanetárias. Os novos modelos Nexus foram concebidos para alcançarem um tempo de vida natural, ao que se seguiu movimentos de supremacia humana para eliminar os androides da Terra. 


Em 2036: Nexus Dawn, o diretor Luke Scott introduz o personagem Niander Wallace (Jared Leto), que desenvolveu modelos de replicantes Nexus-9 totalmente servis, o que afastaria o perigo de novas rebeliões, tentando assim impedir a proibição de fabricação de novos replicantes. 
Já em Blade Runner 2048: Nowhere to run surge o personagem Saper Morton (Dave Bautista),  um androide que trabalha como fazendeiro produtor de proteína. Ele acredita na fé e na religião para entender a natureza humana. Numa época em que os modelos Nexus estão sendo caçados, a ação de Morton para defender uma garotinha e sua mãe de malfeitores faz com que ele esteja na mira dos blade runners. 

Blade Runner 2049

O filme de Denis Villeneuve, lançado oficialmente em 05 de outubro de 2017, portanto, 35 anos após a estreia do longa de Ridley Scott, mostra os acontecimentos que se seguiram ao primeiro Blade Runner. 


Na Los Angeles de 2049, os efeitos da catástrofe nuclear estão mais intensos. Boa parte da população terrena vive em colônias extraplanetárias, já que as condições climáticas eram mais severas, com a natureza entrando em colapso. O agente policial K (Ryan Goslin), é um androide da nova geração que caça antigos modelos Nexus. Em sua missão, ele encontra uma caixa enterrada numa fazenda, que esconde um segredo.  A revelação de seu conteúdo pode gerar um novo conflito entre androides e humanos, que deve a todo custo ser evitado. Para desvendar este segredo, o agente K precisa encontrar Rick Deckard, um ex-policial Blade Runner.


O filme revela o que estava por trás dos acontecimentos do filme original e das reais intenções do presidente da Tyrell Corporation, que criou os androides da série Nexus-6, antes de tirá-los do catálogo. Mais uma vez, a ficção coloca em pauta sobre o significado da vida e o que nos torna humanos. Se os androides eram máquinas biológicas sem alma, desprovidos de empatia, com um tempo de vida limitado, os novos modelos foram munidos de uma maior longevidade e de implante de memórias, que os tornavam mais estáveis, mas ainda sim limitados. Entretanto, essa nova sociedade dominada por máquinas também adquiriu o desejo de poder e controle, ultrapassando os limites da ética e do direito. Esse futuro sombrio, de uma sociedade composta por homens-máquinas, subjugados pelo capital financeiro, manipulados pela mídia, em que o corpo, principalmente o feminino é objetificado e explorado, assim como crianças e adolescentes, não é apenas uma projeção de 2049, mas uma realidade contemporânea. 


Kim Jong-un 
Infelizmente o fantasma de uma guerra nuclear voltou com a escalada da crise diplomática entre Coreia do Norte e Coreia do Sul. A atual configuração da geopolítica mundial e o confronto indireto entre Rússia e EUA, diante da corrida armamentista na Ásia, estaria levando o mundo para uma "Nova Guerra Fria"? Ainda que um confronto militar entre EUA e Coreia do Norte pareça improvável, já que ambas as nações sabem que as consequências de um embate nuclear seriam desastrosas, o tripé entre Trump, Putin e o líder norte-coreano Kim Jong-un preocupa, pois seus líderes não parecem querer recuar diante das ameaças, aumentando a tensão internacional. O governo de Pyongyang afirma que mantém sua política armamentista como defesa. Eles alegam que apoiam o desarmamento mundial total, mas acusam o governo norte-americano e demais países que possuem armas nucleares de terem boicotado as negociações para o Tratado sobre Proibição de Armas Nucleares, aprovado em julho de 2017 por 122 países das Nações Unidas. Mais uma vez, o fantasma de um confronto nuclear se faz mais forte no cenário mundial.

Em 2017, quase às vésperas de 2019, período retratado pelo primeiro Blade Runner, o mundo virtual não é uma ficção, mas já faz parte do nosso cotidiano. Conseguimos evitar uma Guerra Nuclear durante 72 anos desde Hiroshima e Nagazaki, mas a paz ainda não foi alcançada. O que temos é uma sociedade doente pelo consumo, o terrorismo, a intolerância, o fundamentalismo religioso, a violência, a corrupção e o egoísmo. A fluidez cada vez maior das relações humanas é parte de um processo de intensa ruptura social, em que a pós modernidade passa a ser caracterizada como uma época de cegueira moral, da perda da sensibilidade, da falta de solidariedade, da construção de estereótipos e do controle social. Nesse mundo pós-moderno, de decadência urbana, mudanças climáticas, engenharia genética, superpopulação, disparidades sociais e econômicas, o universo de Blade Runner já se faz presente. Blade Runner 2049 é um alerta sobre as consequências de uma catástrofe nuclear e de uma sociedade em desintegração, o que infelizmente não parece ser uma ameaça tão distante.

Elisabete Estumano Freire

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