quinta-feira, 3 de junho de 2021

Obra do cineasta italiano Marco Ferreri inspira performance cênica digital

 



A atriz e produtora Maria Carolina Dressler pretendia realizar um espetáculo inspirado cinematografia do Italiano Marco Ferreri (1928-1997), dando continuidade a uma pesquisa iniciada em 2012. O agravamento da pandemia impediu o encontro dos artistas envolvidos levando a adaptação do projeto para o digital em contrapartida ao Prêmio Aldir Blanc de Apoio a Cultura da Cidade de São Paulo - Módulo I - Maria Alice Vergueiro.

 

Em formato de vídeos curtos, a performance cênica No Terceiro Milênio Seremos Felizes, uma produção do coletivo In Bocca al Lupo, é postada em episódios temáticos na página In Bocca al Lupo no YouTube e Facebook, e no perfil do Instagram da atriz (@mcdressler), toda sexta-feira. A edição dos vídeos é de Heitor Menotti. Entre os temas que serão abordados estão O Cinema de Marco FerreriA Mulher Macaca e o Cinema ItalianoA descoberta de La Donna ScimmiaO Espaço, O Ator e A Imagem e Ferreri Cancelado.

 

Nesta empreitada, os italianos Alberto Sacandolaautor do livro Marco Ferreri (da Castoro Cinema) e Mario Canale, diretor do documentário O Cineasta do Futuro; dois outros apaixonados pela obra do cineasta, foram cumplices no desejo de conceber um trabalho cênico, com intuito de desvelar a obra de Ferreri, e sobretudo seu caráter libertário e surpreendentemente visionário quanto ao futuro da humanidade e da arte, e colaboraram para viabilizar um projeto numa produção Brasil-Itália e nas conexões culturais desses países. A ideia é que futuramente possam colocar em prática a continuidade do projeto, com um espetáculo teatral presencial.

 

“A proposta é coroar a criação deste artista, subvertendo as formas numa típica cena Ferreriana. Uma espécie de palestra cênica, uma cine-peça ambientada dentro de nossas casas ou ambientes intimistas como trouxe Ferreri em seus filmes,” conta Maria. 

 

Marco Ferreri é considerado um precursor quanto a utilização da imagem no cotidiano do homem moderno. Na maioria de seus filmes, projeções em super 8, slides e projetores, interferem no cotidiano dos personagens, na fusão das imagens dos corpos utilizados como telas, ou ainda em outras experimentações. A solidão do homem moderno retratado em seus filmes antecipava questões do século 21. A produção Ítalo-francesa A Comilança (La Grande Abbuffata), de 1973, onde faz uma sátira da burguesia dos anos 1970, é o filme que o consagrou. Foi indicado ao Palma de Ouro e vencedor do Prêmio FIPRESCI.

 

Em 2011 Maria Carolina Dressler teve contato com sua obra através do filme La Donna Scimmia, de 1964, onde retrata a vida da mexicana Julia Pastrana (1834-1860), personagem que pesquisava na ocasião para montagem do primeiro espetáculo do In Bocca al Lupo, Monga, que estreou em 2013, no Sesc Santo André (SP) e foi apresentado em unidades do Sesc pelo interior do Estado e festivais.

 

No entanto, para a atriz a descoberta de seu cinema e de sua genialidade extravasaram a temática deste espetáculo que tinha outras especificidades. “O contexto do ano de 2020 agigantou a necessidade de montagem de No Terceiro Milênio Seremos Felizes.  A frase que dá título à peça, sintetiza o pensamento do cineasta italiano Marco Ferreri”, explica.

 

Cinema e Teatro

Em julho de 2012, Maria Carolina pôde mergulhar no universo do cineasta italiano e vivenciá-lo. O estudo sobre a obra de Marco Ferreri rendeu à atriz convites para intercâmbio na Itália, de instituições como o Museo Nazionale del Cinema (em Torino), o Centro Sperimentale di Cinema (em Roma), e a Università degli Studi di Verona.

 

“Falei com pessoas que conheceram Ferreri ou que trabalharam com ele, tive acesso a um vasto material de arquivo, além do acervo de diversos museus. Assim como os personagens de Ferreri, que sempre buscam suas origens, senti que a viagem foi para mim uma jornada de identificação e reencontro”, fala a atriz.

 

Sobre Marco Ferreri

A estreia como realizador deu-se na Espanha (com o amigo Rafael Ascona), onde filmou El Pisito (1958), Los Chico” (1959), Il Cochecito (1960). Após a experiência espanhola, Ferreri encontra o sentido e a direção de seu trabalho. Ainda nesse período filmou L’Ape Regina (1963), La Donna Scimmia (1964), L’Uomo dei Cinque Pallone (1965), Marcia Nuziale (1966) e L’Haren (1967) – a maioria deles sob  restrições da censura. Dillinger è Morto foi considerado uma das obras-primas de Ferreri e um manifesto de contestação de 1968.

 

A produção ítalo francesa La Grande Abbuffata, de 1973 (indicado à Palma de Ouro e vencedor do prêmio FIPRESCI), é certamente o filme que o consagrou. Segue com a série de produções ítalofrancesas, e com Ciao Maschio/Bye Bye Monkey (1977) recebe o Grande Prêmio do júri de Cannes.  Sua filmografia tem mais de trinta obras de cinema, além das produções para televisão.

 

“O artista que veio do futuro”, “provocador útil”, “anarquista do cinema”, “visionário atemporal”, “criador de formas”, são algumas expressões que tentam adjetivar a obra, o pensamento e o estilo cinematográfico do italiano Marco Ferreri, em virtude de sua radicalidade e espírito crítico, de seu humor sarcástico, pelo fato de sua obra prever problemáticas absolutamente contemporâneas e pela ousadia de sua linguagem estética.

 

A inquietude da contemporaneidade é o gatilho que move o diretor para esboçar seus grotescos personagens. Mostrava a observação cruel e a transformação grotesca a limites inexplorados, tocando em argumentos-tabus não só daqueles tempos. Olhar para o chamado “cinema do futuro” de Ferreri significa olhar também para nossa contemporaneidade, e nos revela o artista criador de uma estética absolutamente moderna em seu modo de fazer e pensar as artes, o mundo, a sociedade do consumo, o ser humano e a natureza.

 

Sobre Maria Carolina Dressler


Possui formação de atriz pela Fundação das Artes de São Caetano do Sul. Licenciada e bacharelada em Educação Física pela Universidade Paulista, onde iniciou pesquisa de indução proprioceptiva na preparação corporal de atores. É arte-educadora de teatro no programa Fábrica de Cultura. No Instituto Porto Seguro é responsável pela direção e dramaturgia dos espetáculos desde 2016, atualmente cria e dirige vídeos para o projeto em formato remoto. Como educadora e artista também promove a intersecção da educação física e da anatomia com as linguagens artísticas. 

 

Integra a Cia Estável de Teatro desde 2002 onde atuou nos espetáculos Patética, direção de Nei Gomes (2018), Homem Cavalo & Sociedade Anônima, direção de Andressa Ferrarezi (2008); O Auto do Circo, de Luis Alberto de Abreu, direção de Renata Zhaneta (2004); Incrível Viagem, de Doc Comparato, direção de Renata Zhaneta (2003); Quem Casa Quer Casa, de Martin Penna, direção de Nei Gomes (2003); Gira!, dramaturgia coletiva, direção de Nei Gomes (2002), Ainda Não, dramaturgia e direção coletivas (2007); e Flávio Império, Uma Celebração da Vida, de Reinaldo Maia, direção de Renata Zhaneta (2002).

 

Trabalha com outros coletivos como Grupo XlX de Teatro, Cia Kiwi, Ocamorana, La Desdeñosa, Corja Filmes, entre outros. Dirigiu A Palavra Escrita no Muro a convite da Cia Em Jornada. Fez assistência de direção e preparação corporal em Segredo Entre Mulheres com direção de Flávio Faustitoni. Fez preparação corporal e atuou em Hoje Tem Mazzaropi, de Mario Viana, com direção de Hugo Coelho (2010).

 

Criou o In Bocca al Lupo, grupo de artes integradas onde concebeu o espetáculo Monga em 2012. Por conta deste trabalho realizou estudo de intercâmbio a convite de artistas e instituições italianas como Centro Sperimentale di Cinematografia - Roma, Università Degli Studi di Verona, Museo Nazionale del Cinema - Torino, escritor Alberto Scandola, cineasta Mario Canale, diretor e dramaturgo Pietro Floridia. 

 

Serviço:

Performance cênica No Terceiro Milênio Seremos Felizes.

Criação e atuação: Maria Carolina Dressler. Vídeos: Heitor Menotti.

 

Transmissão: In Bocca al Lupo no YouTube - https://bit.ly/3ywVbUt

https://www.facebook.com/inboccaallupo

Instagram @mcdressler

Grátis.

Projeto contemplado na 1ª Edição do Prêmio Aldir Blanc de Apoio a Cultura da Cidade de São Paulo - Módulo I - Maria Alice Vergueiro.



Fonte: Adriana Balsanelli


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