segunda-feira, 18 de março de 2019

Empoderamento feminino e nostalgia em Capitã Marvel



Filme estrelado por Brie Larson, Samuel L. Jackson e Jude Law questiona o discurso oficial sobre quem é o inimigo.


Depois de uma longa espera, os fãs finalmente podem conferir na telona Capitã Marvel. O filme, que introduz a personagem como peça-chave para o lançamento de Vingadores: Ultimato, é uma adaptação corajosa. Não somente por apresentar Carol Danvers/Capitã Marvel como uma das mais poderosas do Marvel Cinematic Universe (MCU), mas por realizar consistentes modificações na narrativa original das HQ's, o que vem sendo alvo de críticas de muitos adoradores fervorosos dos quadrinhos. 


Empoderamento feminino e nostalgia. Talvez essas duas palavras possam traduzir a experiência cinematográfica de Capitã Marvel. Codirigido por Anna Boden, em parceria com Ryan Fleck, que também dividem o roteiro com Geneva Robertson-Deworet, o filme é representativo de uma mudança de paradigma, iniciada com Mulher-Maravilha (2017)  da DC Comics. A narrativa de Capitã Marvel não apenas apresenta uma heroína como protagonista principal da trama, mas a coloca numa posição de poder. Contrapondo-se aos clichês machistas sobre a psiquê feminina e os papéis de gênero, Capitã Marvel revela-se como uma representação da quebra da dominação masculina no universo ficcional de super-heróis do cinema. 


Essa mudança de perspectiva, que coloca a personagem da MCU com igual ou maior poder que Thor, Hulk e Homem de Ferro juntos, talvez a única capaz de vencer Thanos em "Vingadores: Ultimato" foi rechaçada por fãs mais conservadores. Por outro lado, o filme também foi injustamente atacado por aqueles que não entenderam as declarações de Brie Larson. A atriz fez uma observação sobre a necessidade de maior participação das mulheres e minorias na crítica especializada e eventos ligados ao universo cinematográfico. Nada mais coerente quando estamos falando de um filme que trabalha com quebra de paradigmas, ainda que sua proposta principal seja o entretenimento.


O longa começa com o embate entre masculino e feminino. O discurso dominante, representado pela fala do comandante Yon-Rogg (Jude Law),  é de que a soldado Vers (Brie Larson) deve controlar suas emoções, mantendo a racionalidade. Nada mais clichê numa perspectiva do ponto de vista de uma sociedade machista. Estar sob treinamento é uma concessão feita a ela, enquanto mulher, que precisa provar sua força e destreza para ser aceita. Entretanto, a personagem não pode ir além do permitido, sendo constantemente repreendida por seu "mestre". O comandante, que teme os poderes de Vers, tenta colocá-la numa posição de submissão, limitando as potencialidades da jovem, pois impede que ela utilize toda sua energia. 


A personagem está em busca de sua identidade, do seu papel no mundo. Lutadora, ela sempre está pronta para enfrentar os desafios. Sem memória e sem passado, Vers é levada a acreditar numa realidade fabricada. Quando desvenda o que lhe foi negado, volta a ser Carol Danvers, uma mulher independente, sujeito de sua própria história. Sua resiliência a transforma em Capitã Marvel.


A adaptação cinematográfica faz algumas inversões: os Skrulls não parecem tão bárbaros como nas HQ's; e a inteligência Suprema da Civilização Kree é representada na figura de uma mulher, a cientista Dr. Wendy Lawson/ Mar-Vell (Annete Bening). Neste contexto, os roteiristas praticamente impossibilitam o aparecimento do personagem Capitão Marvel. Destaque para a aparição infantil de Monica Rambeau (Akira Akbar), Maria Rambeau (Lashana Lynch), de Nick Fury (Samuel L. Jackson) e de Talos/Keller (Ben Mendelshon).

Ambientado na década de 1990, o filme também possui uma atmosfera dos anos 1980. É repleto de referências cinematográficas, como o filme Top  Gun - Ases indomáveis (1986), marco da cultura pop e da reafirmação do estilo American way of lifeA nostalgia também se reflete na trilha sonora com músicas de Bandas dos anos 90, como Nirvana, Nine Inch Nails, Elastica e no Doubt, entre outros. 

Ainda que o filme ressalte a velha ideologia nacionalista norte-americana (obviamente), também coloca em pauta a reflexão sobre um novo ponto de vista de quem é o verdadeiro inimigo. O Outro é necessariamente a real ameaça? O que o discurso oficial nos induz a pensar? Quem seria este Outro? Quais os interesses daqueles que detém o poder da fala para nos induzir a uma visão preconceituosa e de ódio? Refletir sobre o uso político do discurso se faz necessário, já que é através dele que se constroem mitos, mentiras e guerras. 

Para além do filme, vale destacar a bela e emocionante homenagem feita a Stan Lee (1922-2018), presidente emérito da Marvel Comics. Nas cenas iniciais também é possível conferir uma das últimas participações de Lee, contracenando com a personagem de Brie Larson. E os espectadores devem estar atentos para as cenas adicionais, pós-créditos.


Elisabete Estumano Freire.



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