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segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Timur Bekmambetov aposta em versão pop do épico "BEN-HUR"



A nova versão cinematográfica de Ben-Hur: Uma História dos Tempos de Cristo, dirigida por Timur Bekmambetov (“O Procurado”), com roteiro de Keith Clarke (“Caminho da Liberdade”), é a terceira refilmagem do clássico de Lew Wallace feita pela MGM, desta vez em parceria com a Paramount. A primeira foi feita em 1925, época do cinema mudo, dirigida por Fred Niblo; a segunda e mais conhecida, filmada em 1959, com direção de William Wyler é um dos maiores épicos de Hollywood, vencedor de 11 Oscars, com Charlton Heston e Stephen Boyd. O remake conta com Jack Huston e Toby Kebbell, respectivamente nos papeis de Judah Ben-Hur e Messala.

Cena do clássico de William Wyller (1959), com
Charlston Heston e Stephen Boyd.
O longa conta a história de Judah Ben-Hur, um príncipe da Judeia falsamente acusado de traição por seu amigo de infância, o romano Messala, sendo preso e forçado à escravidão nas galés. Depois de muitos anos no mar, Judah volta para sua pátria em busca de vingança, mas encontra a redenção.

A refilmagem de clássicos do cinema sempre é um desafio a mais para os produtores, porque a comparação com o filme antecessor é inevitável. No caso de Ben-Hur não poderia ser diferente. Partindo desta premissa, a versão 2016 de Bekmambetov decepciona. Com produção executiva de Roma Downey e Mark Burnett (série “A Bíblia” -The History Channel, 2013), a nova versão filmada com tecnologia 3D, dispensável, e carregada de efeitos visuais, fica muito aquém da versão de William Wyler.

Bekmambetov optou por construir uma narrativa não linear, entrecortada, cheia de flashbacks e fast foward, a partir do ponto de vista do personagem Sheik Ilderim, interpretado por Morgan Freeman, que narra em voz over os acontecimentos a partir da corrida de bigas. Da arena romana, a narrativa volta no tempo, 8 anos antes, apresentando os jovens Ben-Hur (Jack Huston) e Messala (Toby Kebbell), numa disputa com cavalos. Aqui a caracterização dos personagens é intencionalmente modernosa, até mesmo nas roupas. A interpretação também é destituída do carisma e do magnetismo quase homoafetivo das interpretações de Charlton Heston e Stephen Boyd.

O uso excessivo de câmera na mão chega a incomodar, já que sem função aparente dentro da narrativa. Bekmambetov utiliza muitas sequências em planos fechados e de conjunto. Não há grandes planos gerais e panorâmicas, até pela ausência de grandes cenários. A sequência da galés romanas e da batalha naval entre romanos e gregos é bastante reduzida se comparada com a versão clean de Wyler, porém Bekmambetov é mais fiel ao ambiente sujo dos porões dos navios. O retorno de Ben-Hur como o jovem Arrius, filho adotivo de um cônsul romano é suprimido. Ele é encontrado por Sheik Ilderim (Morgan Freeman) como sobrevivente do naufrágio de galés romanas e identificado como escravo. O interesse de Judah por cavalos faz com que o comerciante aposte nele para enfrentar Messala. Entretanto, na versão de Bekmambetov é Sheik Ilderim o estrategista e profundo conhecedor de cavalos. De homem sem escrúpulos, o personagem transforma-se no conselheiro de Judah Ben-Hur.

O ponto alto do filme é mesmo a corrida de bigas. Até neste momento, Bekmambetov volta a utilizar o recurso do flashback para mostrar os pensamentos de Ben-Hur e de seu encontro com Jesus Cristo (Rodrigo Santoro). A participação do personagem de Freeman na corrida é mais efetiva, dando orientações ao protagonista. O diretor explora bem a sequência, com belas cenas, mas com uma edição mais veloz, quase videoclipada, com ângulos sinuosos, como o frontal em contra-plongèe das patas dos cavalos, praticamente impossíveis de realizar na década de 1950.

A participação de Santoro como Jesus de Nazaré é boa, mas sem a força mística da versão de Wyller. O personagem é apresentado como um homem simples, um carpinteiro com grande espiritualidade, mas seu encontro com Judah também tem seu magnetismo minimizado, apesar de ter uma participação maior dentro da narrativa se comparado com o longa de 1959. O drama vivido pelas personagens de Miriam/Naomi (Ayelet Zurer) e Tirzah(Sofia Black-D’Elia), respectivamente mãe e irmã de Judah Ben-Hur, também carece de maior projeção. Sendo o filme a história de um homem transformado pelo ódio, que reencontra a redenção após presenciar a crucificação de Jesus, o personagem de Jack Huston parece menos impactado que na interpretação de Charlton Heston. Talvez por isso mesmo o desfecho da relação entre Ben-Hur e Messala chega a decepcionar o espectador, praticamente inverossímil.


É evidente que sendo uma nova adaptação, a liberdade poética é uma premissa a ser ponderada, porém o desfecho da trama perdeu em força narrativa. Apesar dos esforços dos jovens atores, e do carisma de Freeman, o duelo entre os personagens de Ben-Hur (Jack Huston) e Messala (Toby Kebbell) foi enfraquecido. Um dos maiores erros de Bekmambetov na nova versão foi a tentativa de construir uma narrativa mais pop, o que inclui sua trilha sonora, no desejo de conquistar o público jovem, ao recontar a história de um épico cinematográfico. Ao final da projeção, a impressão que se tem é que os produtores e o diretor perderam a mão e a oportunidade de utilizar os atuais recursos da tecnologia fílmica para recriar a ambiência de época, criando um novo espetáculo digno das versões anteriores. Perdeu em vigor, escalação de elenco e cinematografia. 

Elisabete Estumano Freire




Fotos e trailer: João Beltrão/Paramount; Karina Maia - Palavra Assessoria em Comunicação.

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