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terça-feira, 17 de abril de 2018

PREMIADO 'AOS TEUS OLHOS' DE CAROLINA JABOR QUESTIONA O PODER DAS REDES SOCIAIS


Filme aborda o risco do julgamento precipitado nas redes sociais



No longa "Aos teus olhos", Rubens (Daniel de Oliveira) é um professor de natação infantil, acusado pelos pais de um aluno de ter beijado a criança no vestiário do clube. A mensagem viraliza nas redes sociais da escola, antes mesmo de qualquer investigação sobre o fato. Sem chances de se defender ou esclarecer os fatos, o professor é vítima de um linchamento virtual, com  graves consequências na vida do personagem. 

Inspirado na peça espanhola "O princípio de Arquimedes", de Josep Maria Miró,  que trata da condenação antes do julgamento, o filme de Carolina Jabor questiona o perigo da utilização das redes sociais na condenação irresponsável dos indivíduos, sem provas. Segundo a diretora, "Concentramos a ação do filme em apenas 24 horas a partir da acusação (dos pais). É muito pouco tempo para você formar uma opinião. Mas essa é a velocidade do julgamento nas redes sociais, onde mesmo os nossos gestos de afeto são julgados. O mundo está mudando, os valores mudaram - e o filme trata disso. Tentamos trazer os dramas do mundo de hoje para dentro desses personagens. Precisamos refletir sobre essa nova forma de comunicação".

Filha de Arnaldo Jabor, a jovem diretora começou sua carreira realizando documentários (O Mistério do Samba, 2008) e séries para a TV (Magnífica 70, A mulher invisível, Desnude). Lançou em 2014 seu primeiro filme de ficção, "Boa Sorte", estrelado por Débora Secco e João Pedro Zappa, eleito melhor filme pelo júri popular do Festival de Paulínia e prêmio de público no Festival de Cinema Brasileiro de Paris. 

"Aos teus Olhos" é o segundo longa de ficção de Carolina. O título do filme já dá uma dica sobre o modo como a direção conduziu a narrativa, tão ambígua quanto o seu personagem central, o professor Rubens. Segundo Carolina, era necessário um ator versátil para o papel, o que a levou a Daniel de Oliveira. "Eu não tinha outra opção, tinha que fazer o filme com o Daniel. Ele é um ator que faz o homem bom, o galã, e faz o vilão, o diabólico. Eu precisava de um ator que compreendesse a ambiguidade do personagem, jogasse com isso. Essa dualidade do Rubens é fundamental para o julgamento do público. Ele é um homem carismático, um professor que as crianças amam, mas tudo isso pode passar de um limite em que, de repente, ele passa a ser um cara perigoso, abusado."

No filme, várias cenas colocam em dúvida não somente a acusação dos pais do menino, mas também a inocência do professor de natação. A precipitação da acusação sem provas, causando estragos irreparáveis na vida dos indivíduos, é uma atitude que precisa ser evitada, constituindo-se em crime contra a honra (calúnia, difamação e injúria), previstos no Código Penal Brasileiro (arts. 138,139, 140). 

O ator Daniel de Oliveira também fala sobre os perigos dos julgamentos precipitados e da responsabilidade que os indivíduos precisam ter no uso das redes sociais: "Hoje muita coisa acontece antes do incêndio de verdade. A pessoa está na dúvida e, de repente, já postou, já era. É um reflexo das atitudes ou palavras que você diz fora do mundo virtual. Na internet você acha que está invisível, mas na verdade não está. Nossas atitudes têm que ser responsáveis seja dentro ou fora das redes. Algumas pessoas extrapolam, fazem julgamentos precipitados e acabam colocando outras pessoas em risco. E a gente, quando navega online, tem sempre que por em dúvida aquilo que lê - com outras fontes, esperto no que você está buscando". 

O elenco conta ainda com os atores Marco Ricca e Stella Rabelo, que fazem os pais do menino Alex (Luiz Felipe Mello), centro da polêmica. Malu Galli e Gustavo Falcão interpretam respectivamente a diretora e um dos professores do clube de natação. E Luisa Arraes é Sofia, a namorada de Rubens. "Aos teus Olhos" foi premiado com o troféu Redentor no Festival do Rio 2017 de melhor roteiro (Lucas Paraizo), melhor ator coadjuvante (Marco Ricca) e melhor longa de ficção pelo voto popular. O filme venceu o prêmio Petrobrás de cinema de melhor filme de ficção na 41º Mostra São Paulo; melhor direção no 25º Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade; Prêmio SIGNIS no 39º Festival de Cinema de Havana; também participou da Mostra World Cinema do 53º Festival Internacional de Cinema de Chicago; e selecionado para o 33º Festival Internacional de cinema de Guadalajara e para o Festival de Cinema de Glasgow, na Escócia.

A temática, comum em tempos de era digital, nos faz lembrar de um dos casos mais emblemáticos sobre linchamento moral no Brasil: o da Escola Base, localizada no bairro da Aclimatação, em São Paulo, em março de 1994. Seus proprietários foram injustamente acusados pela imprensa de abuso sexual contra alunos de quatro anos de idade. A denúncia, que partiu da desconfiança de algumas mães, foi alardeada pelos meios de comunicação sem nenhuma prova do ocorrido. Antes mesmo de qualquer resultado nas investigações, os donos da escola foram massacrados: expostos publicamente, foram achincalhados moralmente, agredidos e ameaçados de morte, sofreram a prisão temporária, tiveram seu estabelecimento depredado e faliram financeiramente. Entretanto, eram inocentes. O caso foi arquivado por falta de provas. Como resultado, as pessoas acusadas tiveram suas vidas destruídas: adoeceram, passando a sofrer de transtornos psiquiátricos como fobia, estresse e cardiopatia; perderam seus empregos; tiveram seus casamentos destruídos e foram isoladas da sociedade.

Elisabete Estumano Freire.

* Trechos das entrevistas com Daniel de Oliveira e Carolina Jabor foram extraídas de material oficial de divulgação do filme (EPK). Fonte: Primeiro Plano Assessoria de Imprensa. 


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