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quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Filme 'O insulto' aborda a situação de palestinos no Líbano


Indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, "O insulto" é o primeiro longa libanês a ser indicado a um prêmio da Academia de Cinema. 

Dirigido por Ziad Doueiri, o filme apresenta a história de Toni, um cristão libanês, e Yasser, um refugiado palestino, que se desentendem por causa de uma simples calha. Um insulto explosivo leva os dois para os tribunais, mobilizando a imprensa e dividindo o Líbano em uma crise social. O longa foi premiado com o Audience Award da American Film Institute, e conquistou o prêmio de melhor ator no Festival de Veneza para Kamel El Basha.
Segundo o cineasta, o filme foi inspirado em uma situação real vivida por ele, num desentendimento com um encanador palestino. Segundo Doueiri “o incidente pode ter sido trivial, mas o sentimento no subconsciente não. Quando você diz essas palavras, é porque sentimentos e emoções muito pessoais foram impactadas.” O roteiro, escrito em parceria com Joële Touma, tem como pano de fundo o conflito entre muçulmanos, judeus e cristãos no Oriente Médio, e a Guerra Civil do Líbano (1975-1990). Também coloca em pauta a restrição de direitos civis dos refugiados palestinos naquele país e faz uma crítica à situação da mulher numa sociedade machista e patriarcal. 
O longa correu o risco de não poder estar entre os indicados devido as cenas filmadas em Israel, o que ainda é crime no Líbano, mas graças ao apoio público conseguiu a liberação do governo. "O insulto" é o quarto trabalho autoral do cineasta ("West Beirute", "Lila  Diz" e "O atentado"), que se formou em Cinema na Universidade de San Diego (Califórnia) e trabalhou como assistente e operador de câmera de Quentin Tarantino. Ziad Doueiri nasceu em Beirute, onde viveu durante o período da Guerra Civil e deixou o Líbano aos vinte anos para estudar nos Estados Unidos. Seus filmes já foram selecionados e premiados em diversos festivais de Cinema em Veneza, Toronto, Marrakech, Istambul, Nova Iorque, Cannes, entre outros. Ele também dirigiu "Sleeper`s Cell" para a Showtime Network (2016) e a primeira e segunda temporada de "Baron Noir" para o Canal+.

Confira a crítica completa do filme "O insulto" no link:

http://www.cabinedecinema.com/2018/02/o-insulto-2017.html


Entenda o conflito histórico:


Com o colapso da administração otomana após o fim da Primeira Guerra Mundial, o Líbano ficou sob controle francês até 1943. Entretanto, a independência política não significou o surgimento de um estado nacional de poder centralizado. O sistema confessionalista" adotado no país, baseado no rateamento do poder político de acordo com o peso demográfico entre diferentes grupos religiosos, gerou mais conflitos. 


Com o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), e o extermínio de milhões de judeus pelos nazifacistas, o movimento sionista conseguiu o apoio internacional para a criação do Estado de Israel (1948), em território palestino antes administrado pela Grã-Bretanha. A reação do mundo árabe foi imediata. Sete países declararam guerra aos israelenses. Os exércitos da Síria, Egito, Iraque, Jordânia, Líbano apoiados pela Arábia Saudita e o Iêmen invadiram o território do antigo mandato britânico na Palestina, mas os confrontos também se deram na Península do Sinai e no sul do Líbano.

A divisão do mundo árabe diante do poderio militar israelense proporcionou a vitória do Estado Judeu tendo como saldo a anexação de mais territórios e a fuga em massa das populações palestinas para os países vizinhos. Além da guerra árabe-israelense, de 1948, seguiram-se os conflitos de 1956, 1967 (Guerra dos Seis Dias) e 1973. Israel ocupou a Faixa de Gaza e o deserto do Sinai (Egito), as Colinas de Golan (Síria), as fazendas de Shebaa (Líbano), Jerusalém Oriental e a Cisjordânia (Jordânia). 


Como resultado das guerras, ocorreu um grande êxodo de palestinos, que se espalharam principalmente pela Cisjordânia, Jordânia, Líbano, Faixa de Gaza (Egito) e Síria, em cerca de 60 campos de refugiados. Muitos também fugiram para o Iêmen, Sudão, Argélia, Tunisia, Líbia e Iraque. A Jordânia foi um dos países que mais recebeu refugiados. No final dos anos 1960, organizações palestinas naquele país se tornaram uma espécie de poder paralelo ao governo, fato este que resultou no confronto conhecido como "Setembro Negro". Por causa dele, milhares de palestinos procuraram asilo em países vizinhos, principalmente o Líbano.

O fluxo de refugiados palestinos, que se concentrou no sul do país, nunca foi bem aceito pelo governo libanês. A guerra civil do Líbano (1975-1990) foi consequência da disputa entre árabes e israelenses pela posse do território da palestina, e da divisão da população libanesa, principalmente entre cristãos maronitas, que controlavam a economia e eram aliados do ocidente, e mulçumanos, ligados à Síria. 

O Líbano foi palco de uma série de atrocidades e atos terroristas cometidos pelas falanges libanesas, israelenses e palestinas, destacando-se o massacre da Karantina (1976), realizado por milícias cristãs libanesas contra palestinos; o massacre de Damour (1976), em que palestinos mataram mais de 600 cristãos maronitas; e o massacre de Sabra e Chatila (1982), um genocídio com mais de 3 mil mortos entre refugiados palestinos e libaneses que foram assassinados por uma milícia cristã maronita. 


Em 1979, o Egito assinou um acordo de paz com Israel, recebendo de volta o Sinai. Em 1982, o ministro da defesa israelense Ariel Sharon enviou tropas para o sul do Líbano, na operação "Paz na Galiléia", chegando até Beirute. Após dois meses de intensos bombardeios foi negociada a retirada da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) da capital libanesa, que deixou o país no ano seguinte.  Beirute e seus arredores foram bastante atingidos, ficando praticamente em ruínas, na década de 1980.


O governo israelense incentivou a criação de colônias judaicas nos territórios ocupados, principalmente na Cisjordânia. As populações palestinas reagiram com ondas de violência, as chamadas intifadas, com um saldo de mais de mil mortes. Grupos radicais islâmicos realizaram ações terroristas contra civis dentro e fora de Israel, que retirou a maior parte de suas tropas do Líbano em 1986, após a assinatura do acordo de cessar-fogo, em Damasco. Entretanto, o pacto foi boicotado pelo Hezbollah (grupo xiita apoiado pelo Irã), milícias de maioria sunita e setores da comunidade cristã. A violência prosseguiu, com sangrentos combates nos subúrbios de Beirute e o assassinato do primeiro ministro Rashid Karami, em 1987. Israel cria uma milícia libanesa aliada, o Exército do Sul do Líbano (ESL), invadindo aquele país. 

Em 1989, uma nova tentativa de reconciliação nacional entre as facções religiosas no Líbano acontece na Arábia Saudita, com o apoio dos EUA, França, Reino Unido, URSS e demais países árabes. O Acordo de Taif determina a igualdade de condições entre cristãos e muçulmanos no governo e o desarmamento de milícias. O general cristão Aoun rejeita o acordo e se autoproclama presidente, iniciando novos conflitos. Após a invasão do Kwait pelos EUA, em agosto de 1990, os sírios, com o apoio norte-americano, bombardeiam o quartel general de Aoun, forçando seu exílio na França. Uma frágil paz é estabelecida pelo tratado de maio de 1991, com o domínio da Síria sobre o Líbano. O sul do país permanece sobre controle de Israel e do ESL, reprimindo a população local, principalmente xiitas. 


A resistência de guerrilheiros do Hezbollah, grupos laicos nacionalistas, palestinos e comunistas contra a ocupação israelense aumentam a tensão na região.  Em 1996, os Israelenses bombardeiam os subúrbios de Beirute, matando centenas de civis. Em abril de 1998, Israel anuncia intenção de cumprir resolução de segurança da ONU de retirar seus exércitos da faixa de 15 km do sul do Líbano, mantendo uma "zona de segurança" que permaneceu no país até 2000. No entanto, permaneceram nas fazendas de Shebaa, próximas as Colinas de Golã, por não considerá-las como território libanês.

Em 2006, um novo ataque do Hezbollah e o sequestro de dois soldados israelenses provocou a segunda guerra do Líbano. Os confrontos duraram um mês até o cessar-fogo, mediado pelo Conselho de Segurança da ONU, que determinava: o fim das hostilidades, a libertação dos soldados sequestrados, a retirada das tropas israelenses do território libanês, o desarmamento do Hizbollah e o envio de uma força armada internacional (UNIFIL) para guardar a fronteira, no sul do Líbano, com o auxílio de tropas do exército libanês. O fim do confronto teve como saldo a morte de 1.200 pessoas no Líbano, a maioria civis, e 900.000 desabrigados.

Elisabete Estumano Freire.



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