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quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

'120 batimentos por minuto', filme sobre luta LGBT contra AIDS está em cartaz nos cinemas


Grande vencedor do prêmio do Júri (prêmio FIPRESCI) do 70º Festival de Cannes 2017, "120 batimentos por minuto" é um filme sobre a luta contra a AIDS e o ativismo do movimento LGBT. Dirigido por Robin Campillo, o longa é ambientado na Paris do inicio dos anos 1990, acompanhando as ações do grupo "Act Up Paris", uma ong voltada para os direitos dos soropositivos e minorias, quando a política de saúde pública francesa não adotava medidas mais eficazes na prevenção e no tratamento da epidemia. 

O longa retrata a militância política do grupo, que desenvolvia diferentes tipos de ações políticas, como passeatas nas ruas, panfletagem nas escolas e distribuição de preservativos e seringas. Eles também realizavam intervenções em palestras, debates e coquetéis de políticos e empresários dos maiores laboratórios farmacêuticos da França, responsáveis pelos testes e produção de novos antirretrovirais para o tratamento dos pacientes infectados pela AIDS. O filme também mostra as atividades de mobilização social contra o preconceito referentes ao direito de gênero, sexualidade (LGBT) e inclusão social, no tratamento de viciados em drogas, prostitutas, hemofílicos e estrangeiros. 


Eles pressionavam o Estado e os grandes laboratórios franceses a divulgar o resultado dos exames dos soropositivos com as novas drogas antirretrovirais, exigindo a liberação de medicamentos inibidores de protease. Apesar do crescimento da epidemia, o tratamento dos soropositivos na França, no início da década de 1990, era muito deficiente. Os ativistas denunciavam o descaso dos laboratórios que demoravam a liberar os medicamentos e ocultavam as informações sobre os testes de novos antirretrovirais forçando o grupo a desenvolver ações políticas cada vez mais agressivas.

"120 batimentos por minuto" é uma espécie de documentário ficcional. Segundo Robin Campillo, o roteiro foi escrito em parceria com Phillipe Mangeot, resultado de suas memórias e experiências pessoais. Os dois roteiristas participaram ativamente das ações políticas do "Act Up Paris" na década de 1990, na luta ao acesso à informação preventiva e ao tratamento digno dos homossexuais soropositivos, assim como de todos os indivíduos marginalizados pela sociedade.

Partindo do ponto de vista dos membros do grupo, o cineasta reconstrói a dinâmica do modus operandi do ativismo do "Act Up Paris". As discussões acaloradas, o planejamento das ações, confrontos externos e conflitos internos. Com uma câmera nervosa, ágil, na mão, Campillo traz o espectador para o centro nervoso da organização, que nem sempre estava coesa em relação às formas de atuação política. Para todos os integrantes era urgente a mobilização da imprensa e da opinião pública para pressionar o Estado e os grandes laboratórios sobre a situação dos soropositivos e o avanço da epidemia.

Em entrevista à imprensa, Campillo revelou que, durante os anos 1980, vivia aterrorizado pelo fantasma do vírus da AIDS ao ver seus amigos morrerem e imaginar que também estaria infectado. Ingressou na organização em 1992, transformando o medo, a raiva, a sexualidade e a doença em força política. 

A experiência pessoal de participar do movimento e a sensação de viver no limbo entre a vida e a morte repercutiria nos filmes do cineasta. Les Revenants (2004), em que os mortos regressam, e Eastern Boys (2013), de temática gay, em que estranhos invadem a casa de um homem, também exploram o sentimento de perigo e do limite da vida. 


Finalmente em "120 batimentos por minuto" (2017), Robin Campillo revela 
a metamorfose pessoal que sentiu nos três anos que participou intensamente do "Act Up Paris". Essa transformação é representada cinematograficamente na relação entre os personagens principais da história, Nathan (Arnaud Valois) e Sean (Nahuel Pérez Biscayart). De um começo tímido, performático, de observador silencioso, surge uma relação que se desenvolve lentamente até se revelar intensa, apaixonada. Outros personagens, que também pertencem a esse universo, ganham destaque na narrativa, como os combativos Thibauld (Antoine Reinartz) e Sophie (Ádele Haenel), que participam da liderança do movimento. 


O filme não é apenas um registro das memórias do ativismo do "Act Up Paris" na defesa da vida e do direito dos soropositivos ao tratamento digno. Carrega uma dose de poesia em meio a tragédia da epidemia e da urgência de manter a vida. A batida frenética da música eletrônica que embala os personagens traz a sensação que cada momento deve ser vivido intensamente. É também uma luta contra o preconceito da sociedade à comunidade LGBT e o descaso do Poder Público para com os direitos fundamentais dos indivíduos, que devem ser respeitados independentemente de cor, nacionalidade, gênero, credo e opção sexual. 

Elisabete Estumano Freire.

* Veja também http://www.cabinedecinema.com/2018/01/120-batimentos-por-minuto.html